22.6.09

Bigode, SOMA

Bigode, SOMA. Pelo menos um brasileiro também faz jus à galeria marginal que vínhamos traçando de início: Roberto Freire, o Bigode (1927-2008).[i] Certamente haverá outros[ii]. Sobre ele, especificamente, haverá muita coisa a dizer. Desde que redigiu sua autobiografia[iii], porém, podemos conhecer o relato de suas experiências de vida com a força do próprio punho. De menino gago do Bexiga, bairro italiano de São Paulo, Brasil, Bigode virou médico e quase psicanalista, depois virou jornalista crítico, romancista, dramaturgo, cineasta e músico de um cotidiano político. Não bastasse, também virou terapeuta radical. Acima de tudo, sempre foi um incansável sonhador, produtor de momentos culminantes, militante do tesão que aos poucos e sempre foi (re)descobindo os sentidos das anarquias em sua vida.

Inveterado boêmio e amante.

Inúmeras vezes preso na época da ditadura, quando o sangue lhe fervia o peito sob a camisa e o calor lhe fazia agir como o rato que coloca o sino do aviso no pescoço do gato sonolento, ele trouxe até o fim em seu corpo as marcas inevitáveis do regime. Trouxe também as marcas de todo o tesão que o cercou em vida: deixará de herança mares, ondas de tesão. Ele descobriu que sem tesão não há solução no muro de um cemitério na Consolação[iv], que afirmou que a utopia deve ser cheia de paixão[v] e que declarou que o vexame de amar é um ato revolucionário.[vi] Viva eu, viva tu, viva o rabo do tatu![vii]

Bigode: terrorista, clandestino e hedonista.

Certamente foi pra Croatã.

Ele sempre dizia que sua principal criação tinha sido a somaterapia, ou o que normalmente chamamos de SOMA. A SOMA. O nome intriga muitas pessoas, mas refere-se ao soma e à sua emergência como nosso foco. Criada entre o final da década de 60 e inícios da década de 70, período de intensa experimentação artística e atividade política, a SOMA é uma prática anárquica que elenca para si alguns objetivos terapêuticos. É conhecida como uma terapia anarquista. Muitos torcem o nariz ao ouvir a palavra terapia, já tão carregada de sentidos que supõem enquadramentos e medicalizações, mas é certo que Bigode falava de outra coisa: nada dos esforços de enquadramento, nada de práticas privatistas ou familiaristas. Terapia deve ser um ato de resistência. Tantos mais torcem o nariz para a palavra anarquista. E encontramos nas anarquias muitos sinônimos para a resistência.

Seu surgimento deriva principalmente de uma grande pesquisa realizada por Roberto Freire e figuras como Sylvio Zilber e Miriam Muniz, no Centro de Estudos Macunaíma, em São Paulo, Brasil. Ligada à prática do teatro e à formação de atores, esta pesquisa tinha como objetivo o desbloqueio da criatividade, da coragem, da expressividade e da prontidão em jovens atores de teatro. Nos tempos de ferro em que vivia-se, pesquisava-se o desbloqueio do tesão nestes jovens atores, o desbloqueio de seus potenciais vitais através de exercícios corporais, jogos lúdicos e vivências dramáticas. Influenciado principalmente pelas idéias de Wilhelm Reich, que descobriu após assistir a uma peça chamada Paradise Now, do grupo de teatro anárquico Living Theater, e posteriormente pelas idéias de outros terapeutas bioenergéticos, de Frederik Perls e sua gestalt-terapia, de David Cooper, Ronald Laing e dos demais participantes do movimento da antipsiquiatria, bem como pela sua participação em movimentos de resistência à ditadura e anárquicos[viii], Roberto Freire acabou por sistematizar um processo vivencial baseado em cerca de quarenta jogos, cada um destes jogos propondo experiências relacionadas ao uso soberano e criativo do próprio corpo em contato cotidiano com o mundo, procurando oferecer uma janela para o caminho de busca e exercício da originalidade radical de cada corpo neste mundo.

Transformar esta pesquisa ligada ao teatro em terapia foi o passo dado para levá-la para outros contextos. Os jogos apresentavam limiares corporais, faziam irromper potenciais afetivos, engendravam energias até então latentes, deixavam gritar ou faziam silenciar, sugeriam revolucionar ou resistir, troçavam, brincavam, davam cambalhotas, e nisso serviam como instrumentos que permitiam traduzir as circunstâncias de um corpo em seu contexto. Na experimentação destes limiares, os jogadores entravam em contato com experiências que a vida ordinária até então não lhes proporcionava, ou mesmo que procurava negar. Desde o suporte do corpo, novas sensações, novas intuições, novos mapas afetivos, talvez outros desejos e outro afã de realizá-los.

Hoje, a SOMA é articulada em três eixos de experimentação: o primeiro grande eixo é composto pela bateria de jogos e vivências diversas, resultado das pesquisas e dos contatos da SOMA com outras terapias e com os universos do teatro, do cinema, da dança e do artivismo; neste eixo, os jogos se encadeiam no sentido que problematizar a experiência cotidiana do corpo em suas diferentes facetas: em sua vitalidade, em seus esquemas de percepção, em suas modalidades de comunicação, no balanço entre sua afetividade e sua agressividade, em sua capacidade de enfrentamento e no uso de suas sensibilidades, por exemplo. Poderíamos chamar um segundo grande eixo de pedagógico, porque nenhuma terapia acontecerá sem cumplicidade com a cartografia, com a tentativa de entender que mundo é esse, como ele contribui para que nos tornemos quem somos e de que maneira podemos inventar práticas dissidentes a partir de uma política do cotidiano: macro e micropolítica, militâncias, insubmissões, histórias dos movimentos libertários e de seus anárquicos, autogestão e práticas de consenso misturam-se às histórias de vida de cada participante dos grupos procurando enfrentar pedaços do quebra cabeça que é a constituição de cada indivíduo original. Um terceiro grande eixo articula-se em torno de pesquisas cuja data de fundação remete ao início dos anos noventa e diz respeito à complexa vivência da capoeiragem como recurso tanto terapêutico quanto político e artístico, trazendo ao processo uma amplitude de vivências e discussões que vão desde a vitalidade até a importância das práticas marginais, passando por elementos como canto, ritmo, dança, história, luta, teatralidade e expressividade.[ix]

Cada um dos eixos, embora mantenha sua relativa independência e proponha cronogramas de encontros específicos durante o tempo de duração dos grupos, ele articula-se com os demais em uma mesma e única estratégia ao mesmo tempo terapêutica e política, e é somente nesta articulação que conseguiremos entender a complexidade dos resultados que a técnica da SOMA pode facilitar.[x]

Os motivos pessoais de Bigode, quando da criação da SOMA propriamente dita, eles eram claros: em primeiro lugar, ele estava insatisfeito com os encaminhamentos tanto de sua função de terapeuta, antes ligada à possibilidade de exercício da psicanálise, quanto de sua experiência como médico e de sua experiência como militante antiditadura. De um lado a outro, na psicanálise, na prática médica ou na prática militante, ele não percebia as condições para um efetivo processo de revolução do cotidiano, dado essencial em quaisquer que sejam as reações aos processos de adoecimento. Percebia que as terapias se eximiam da política e que a política era um dado importantíssimo para as terapias da época, isso porque o jugo do ditador influencia consideravelmente os panoramas afetivos, e os panoramas afetivos influenciam consideravelmente a potência revolucionária. Roberto dizia que a principal conseqüência da ditadura foi o aumento do medo de amar, e daí a paralisia geral.

O dinamizador da política é o amor.

As políticas militantes negligenciavam soberbamente as demandas de cunho terapêutico, ou nem tinham como avaliá-las entre a correria dos bunkers e aparelhos. Em quaisquer destes âmbitos, terapias e políticas, o trânsito de poderes autoritários atravessando não só os grandes esquemas de governo, mas também as práticas cotidianas, reverberando, amplificando, corroendo e fissurando a mais íntima espessura da nossa vida. O adoecimento do corpo é um dos principais reflexos deste sistema de relações, o reflexo dos esquemas de governo e das negociação de poder onde eles também produzem panoramas corporais; um corpo embrutecido, o autoritarismo e a servidão como seus principais produtos, o medo e paralisia como resultados.

A SOMA cria um espaço intermediário e híbrido entre os domínios da terapia e da política utilizando jogos aplicados em outros contextos, ou melhor, criando situações de jogo que permitam experimentar e pensar o exercício de uma política do cotidiano tanto em seus aspectos mais evidentes quanto em seus panoramas corporais e afetivos: fazer da terapia uma condição para o bom uso da política; fazer da política uma condição para bom desenvolvimento de um processo terapêutico; entender a terapia e a política como modos criativos de libertação, modos que ajudam a produzir uma vida radical e bela cuja originalidade tenha como metáfora os grandes rompantes da arte contra toda sorte de poderes autoritários.

A SOMA é um laboratório de liberdades.

É nas negociações de poder que conseguiremos encontrar uma etiologia para os processos de adoecimento, assunto propriamente terapêutico; no seu revés, é num funcionamento adoecido que residem os principais impedimentos para o bom exercício das liberdades no cotidiano, nossa servidão voluntária, assunto propriamente político.

Seu status de híbrido faz com que sua delimitação seja complicada, e mais do que isso, que de parte a parte existam questionamentos sobre seu estatuto e local de pertinência: muito embora os artistas não pareçam ter nada contra sua existência, tampouco contra a epifania da própria vida como obra de arte, a SOMA não é reconhecida como ciência e é olhada com certa desconfiança pelos militantes, até com certo desdém entre os adeptos do esquerdismo classista. Não podemos dizer que a SOMA é propriamente uma psicologia: embora absorva as influências e pesquisas de ex-psicanalistas, antipsiquiatras e psicólogos, tenha sido criada por um ex-psicanalista e tenha constituído para si objetivos propriamente terapêutico, ela nunca foi e pode-se dizer que ainda não é reconhecida como prática psicológica. Embora mantenha seu compromisso com a cartografia, também não podemos dizer que a SOMA é uma psicologia social.

A SOMA ainda permanece estranha ao ensino da psicologia, ou próxima somente quando engrossa o caldo do que chamam de terapias alternativas – o horror dos Conselhos. Mas interessa menos achar seu status de legitimidade acadêmica e mais constituir a possibilidade de outras formas de legitimidade, ali onde uma mesma prática pode estar entre as psicologias, as políticas e as artes sem, no entanto, aderir a um mesmo ambiente ou confundir-se com alguma delas em específico. Há de se construir a possibilidade de um reconhecimento das práticas que passam entre estes domínios todos, e até sondar o quanto cada qual das práticas ainda consegue ser pura em qualquer que seja o domínio que ela pretenda ocupar. Se práticas como a SOMA não adquirem legitimidade nestes ambientes, não é porque não a mereçam: é simplesmente porque, nestes ambientes, segundo a índole separatista das modernidades e suas cadeias de privilégios, uma prática assim é como uma prática anômala, aquela que fica num lugar entre as fronteiras ou, mais precisamente, num não-lugar.

A SOMA, uma anomalia.

Mas é preciso festejar as práticas anômalas.

Retomando os problemas discutidos anteriormente, podemos sondar o que a SOMA nos oferecerá como disparador de discussões: no que diz respeito ao método, é criada numa incursão radical de Roberto Freire em domínios diversos, sendo a expressão da intensidade de uma pesquisa visceral e viva empreendida contra determinados aparelhos autoritários então em vigor, continuada atualmente em condições novas e peculiares pelas pessoas que seguem neste interesse; no que diz respeito à constituição de um objeto de estudo, o soma aparecerá como elemento singular mesmo entre as demais práticas corporais, articulando biologia e cultura, consciência e inconsciência, história de vida e poderes, humanos e não-humanos; sua origem estará claramente implicada com condições históricas específicas dentro de uma conjuntura local, e seu desenvolvimento busca, antes de apagá-las, pesquisá-las e ressaltá-las como forma de entender e rearticular seus objetivos no presente; seu exercício é abertamente interessado nas libertações, abertamente contrário aos sistemas de sociabilidade autoritária; sua escrita encontra vazão tanto em livros técnicos quanto através da literatura, e pode-se dizer que a porta de entrada no universo da SOMA podem ser os próprios romances de Roberto Freire.

Subvertendo noções, tendo outras abordagens do cotidiano, invertendo a neutralidade no rumo dos exercícios interessados e cravada entre domínios supostamente diferentes, esta prática híbrida servirá à psicologia e à psicologia social, e também àqueles que procuram práticas não-modernas, também como um laboratório onde a ciência encontrará a política e a arte, onde a política encontrará a ciência e a arte, e onde a arte encontrará a ciência e a política.

E daí haverá de nascer outros tipos de prática, práticas híbridas.

Somatologias, ou nem isso.

São mil outros caminhos.



[i] “Roberto Freire: anarquista, escritor de Cleo e Daniel, Coiote, Os cúmplices, Ame e dê vexame, Se tesão não há solução, Viva eu viva tu viva o rabo do tatu, de peças de teatro, novelas, revistas, programas de televisão, cinema. Não submeteu sua existência ao governo do Estado nem a outros governos sobre a vida. Escreveu em todos os cantos possíveis, sob cada nesga, que mesmo sob diversas formas de autoritarismo nas relações, pessoas que se amam livremente despertam costumes liberadores. Inventou a Somaterapia no final dos anos 1960, como resistência ao regime militar no Brasil, prestando auxílio psicológico e financeiro para a manutenção de famílias de militantes clandestinos vitimadas por fuga, prisão ou morte. Incorporou a seu modo o tesão, palavra que corria na língua dos jovens, para afirmar seu anarquismo somático, que não apartava da batalha prazer e paixão. Apreciador da beleza e da alegria no movimento dos corpos, no sexo solto, Roberto Freire temperou o anarquismo com sensualidade, lutando corajosamente, de peito aberto, como se diz na capoeira. A presença de seu pensamento singular na universidade, em pesquisas, encontros, cursos, provoca a irrupção de experiências imperdíveis, na carne de quem, deliciosa e libertariamente se envolve neste outro jeito de se fazer política. Algo em nós fica mais forte com esta experiência protomutante, anunciadora, cúmplice, parceira, amiga e guerreira. Existência que habita hoje quem vive interessado na lida com a vida nos excessos, convite irresistível para curtir teso o arco na anarquia. Saúde, Tesão e Anarquia.” (grifos do autor) Ver: Gustavo Simões. “O arco teso da anarquia” in Revista Verve #14. São Paulo: Núcleo de Sociabilidade Libertária da PUC/SP. Out/2008. p.253-254.

[ii] Ver: Nildo Avelino. Anarquistas: antologia de existências. Rio de Janeiro: Achiamé, 2004.

[iii] Ver: Roberto Freire. Eu É um Outro. Salvador, Maianga, 2002.

[iv] Ver: Roberto Freire. Sem Tesão Não Há Solução. São Paulo: Trograma, 1990.

[v] Ver: Roberto Freire. Utopia e Paixão – A política do cotidiano. São Paulo, Trigrama, 1991.

[vi] Ver: Roberto Freire. Ame e Dê Vexame. Rio de Janeiro, Guanabara, 1991.

[vii] Ver: Roberto Freire. Viva Eu Viva Tu Viva o Rabo do Tatu! São Paulo: Símbolo, 1977.

[viii] Sobre a teoria da Soma, ver: Roberto Freire & Coletivo Anarquista Brancaleone. O Tesão pela Vida. São Paulo, Francis, 2006.

[ix] Para uma apresentação dos benefícios da capoeira angola como recurso terapêutico, assim como para conhecer sua história e atualidade, ver: João da Mata. A Liberdade do Corpo – Soma, capoeira angola e anarquismo. São Paulo: Imaginário, 2001.

[x] Sobre a metodologia da Soma, ver: Roberto Freire & Coletivo Anarquista Brancaleone. O Tesão pelo Risco. São Paulo, Francis, no prelo.