22.6.09

Modernidades

Modernidades.[i] Demarcar o que seja a modernidade parece algo tanto mais complexo quanto mais amplo e detalhado do que procurar as origens ou a unidade de uma psicologia ou de uma psicologia social. A modernidade, no que muitas vezes parece sua amplitude, ela é como uma grande matriz, um arcabouço cuja constituição guarda e dá forma a um grande (senão épico) e recente (senão presente) período de nosso desenvolvimento intelectual e técnico; diferente de uma psicologia ou de uma psicologia social, a modernidade não é um recorte específico dos saberes, mas um recorte transversal, uma linha de corte que atravessa diferentes campos do saber procurando fornecer-lhes uma aura, uma intenção, e que em certa medida os constitui enquanto domínios separadas; a constituição moderna busca estabelecer os princípios de um estatuto cuja funcionalidade e legitimidade fundaria, alcançaria e balizaria diferentes especificidades. Mas a dificuldade em demarcar uma modernidade tem na sua amplitude somente uma razão aparente: a modernidade não é um pacto propriamente unitário, sofisticado ou detalhado, mesmo que tenha características específicas que vamos logo sondar.

Logo veremos que, antes de falar de uma modernidade, é necessário falar de modernidades. É necessário falar de uma multiplicidade de pactos, e que qualquer pacto propriamente moderno é somente um dentro muitos, mesmo que assuma uma forma relativamente hegemônica e bem distribuída como ao propor o gerenciamento das multiplicidades a partir do desenvolvimento científico. A pretensão de uma modernidade unitária da qual a constituição é organizada e unívoca, com contratos claros e vigentes, tudo isso não reflete seu caráter tantas vezes paradoxal e contraditório.

A modernidade enquanto pacto unitário é muito mais frágil do que normalmente supomos. Sua constituição é muito menos consensual do que normalmente supomos. Acredita-se que já se pensou demais acerca da modernidade, e que todo este pensamento fez sofisticar esta reflexão; mas sua constituição é antes de tudo uma colcha de retalhos, nem tão bem escrita e clara quanto achamos, e que contém contradições entre muitos de seus ardis.

Eis a principal dificuldade em demarcá-la.

Desde que inventaram a primeira das dicotomias até as categorias empregadas na atualidade, vemos surgir um jeito mais ou menos bem distribuído de colocar os problemas, e isso já é algo a considerar. Este jeito de colocar os problemas privilegia critérios de fatiamento e de mútua exclusão. Mesmo que as alegorias da religião estejam cada vez mais suprimidas (ou que só agora parecem voltar nas formas mais contemporâneas de fundamentalismo ou carisma), permanecem entre nós, em larga escala, as tendências de constituir divisões como ciência versus política, sujeito versus objeto, humano versus não-humano, indivíduo versus sociedade, cultura versus natureza, pergunta versus resposta, teoria versus prática, mas também passado versus futuro, perto versus longe, direita versus esquerda, tempo versus espaço, eu versus as coisas. A modernidade científica mantém uma relação estreita com estas divisões, mas não é isto que a define propriamente: o império das dicotomias é antes um fenômeno notado na multiplicidade das modernidades, dentro do que a modernidade científica é somente uma forma de expressão.

Colocando-se em cada par num determinado extremo, os signatários da modernidade certamente operarão a lógica do Ou ... Ou, nunca a do E ... E; interessa-lhes principalmente a divisão e a categorização, o escalonamento, o apontamento de fontes e matérias primárias e secundárias, a serialização. Seus pactos de fatiamento e mútua exclusão supõem sempre o privilégio de uma parte específica: é quando o homem reina sobre a natureza, a razão reina sobre a carne, deus está sobre todas as coisas, todas as coisas são subordinadas à vontade, a natureza transcendente sobreviverá à humanidade, a utopia comunista acabará com a barbárie, o progresso científico justifica a política etc.

Mesmo que opere esta lógica de mútua exclusão como uma de suas características bem compartilhadas, é necessário dizer que a modernidade compõe ambientes não-unitários porque, de diferentes pontos, cada qual dos seus signatários pretende esta distribuição de privilégios para si e a partir de fatias e serializações específicas; cada qual dos signatários da modernidade defende criticamente o seu viés contra toda sorte de ataques e polêmicas dos demais signatários, e os resultados são geralmente excludentes.

O dissenso moderno não é possível sem briga.

Não será à toa que vivemos tantas guerras.

Podemos dizer que a história dos pactos modernos pode ser colocada dentro da história das mútuas exclusões, a história da distribuição de privilégios, de gotas de Verdade, e que a melhor forma de representar seu espaço de realização seria uma sabatina cheia de espertos sábios, espécie de julgamento onde cada qual advoga a seu argumento, seus objetos e aparelhos o status de primário contra toda a agonia do erro inato. Uma tal discussão sempre gerou muitos conflitos, e se a Verdade era um ponto crucial no encaminhamento das discussões entre os modernos, era tanto e muito que estava em jogo: histórias, rotinas, escritas, tendências, projetos e tudo o mais. Na sabatina, o primeiro sábio dirá: temos que fazer progredir a ciência para que possamos fazer progredir as sociedades; o segundo sábio replicará: mas somente o progresso das sociedades poderá angariar o bom uso das invenções científicas; um terceiro: senhor, resta à vontade humana o bom uso das coisas, somos capazes de tudo; o quarto: a natureza cobrará tudo em dobro, a Gaia cairá em fúria orgânica sobre a civilização entorpecida; o quinto: a técnica nos salvará do holocausto biológico; o sexto sábio lembrará as facilidades do paraíso comunista; o sétimo fará protesto em torno da soberania das matemáticas e o último, quase acanhado, ainda perguntará: mas e Deus? Onde está o Senhor? Onde ficará a Providência? Daí em diante, cartadas e cortadas, senão rajadas de método e neutralidade como símbolos e garantias de veracidade ou validade.

Eis o ambiente das modernidades.

Péssimo.

O máximo que se pode ver para além das dicotomias é a serialização, e neste ponto iremos compor escalas circulares ou lineares um pouco mais complexas que terão, na distribuição dos privilégios, tanto maior peso quanto melhor forem as qualificações concêntricas ou em linha. A pergunta bastante recorrente: o que vem antes? O que impera? O que gira em torno de quê? E como organizamos a fila ou gerenciamos o diagrama a partir desta qualificação? Primeiro a família, depois a escola, depois a caserna, o trabalho... eis que disseram[ii].

A modernidade enquanto pacto unitário de idéias e roteiros, ela foi um desejo que nunca se concretizou. Este desejo existiu entre aqueles que quiseram ser modernos, e que para tanto constituíram uma comunidade de interesses cuja índole geral pode ser dita como a do policiamento recíproco, e cujas rotinas principais giram em torno de uma razão instrumental que busca o ato gerente contra todo o grande universo do erro inato. Entre os modernos, a modernidade enquanto pacto unitário foi uma grande e desenfreada busca, seu horizonte sempre ampliado como o coelho que corre atrás da cenoura amarrada em sua testa. Muito foi feito em nome da unidade desta comunidade, mas só o que ela fez foi proliferar diferentes versões entre suas grandes celebridades e suas grandes idéias.

Instaurar grandes polêmicas.

O destacamento de uma modernidade dentro do ambiente mais geral das modernidades é algo que deve ser entendido no contexto da organização das ciências, ou da constituição de uma grande Ciência. Além da dicotomização ou do desejo de Verdade, o que também caracteriza uma certa modernidade é a vigência de determinados privilégios dentro de um espaço propriamente científico, a criação e a gerência de um espaço e de interesses propriamente científicos. Podemos dizer que a modernidade é um movimento cujos signatários são principalmente aqueles que, ao operar estas lógicas binárias, circulares ou lineares no rumo de uma Verdade suficiente, acreditaram que no edifício e nas rotinas científicas haveriam as bases mais sólidas para o bom caminho e o progresso na ordem do mundo, no viver cotidiano.

A modernidade deseja muito a Ciência.

Mas, embora as práticas adjetivadas de científicas tenham ocupado um lugar de destaque em seu funcionamento, e há mesmo uma dicotomia que opera na própria divisão ciência versus senso comum um forte sistema de poderes, as modernidades não ficam restritas a esse desejo e a esse ambiente propriamente científicos. Para além da modernidade científica, as modernidades são compostas por grupos dispersos tentando organizar as coisas dentro de certos sistemas de escalonamento e poder, em grande medida também ligados ao pensamento analítico, à razão instrumental e às práticas gestoras, mas também misturando neste bojo toda sorte de espiritismos. As modernidades devem ser entendidas como os esforços dispersos deste tipo de gente, esforços cujo resultado é a mútua exclusão. Se dissemos da não-unidade da psicologia e da psicologia social, chegando à possibilidade das psicologias e psicologias sociais, também deveremos trabalhar em torno de modernidades.

O que nos permitirá taxar diferentes problemas como modernos é menos a participação como signatário em algum dos pactos propriamente científicos, menos seus conteúdos ou questões de ordem científica, mas um conjunto heterogêneo de visões e interesses que guardam entre si um gosto muito particular pelas dualidades, pelas dicotomias, pelas séries, pelo pensamento ancorado em lógicas binárias, em razões analíticas ou instrumentais. Perto ou longe não depende de quem vem ou vai? Aqui ou lá ou acolá não dependem de onde estamos? Uma geometria mais sofisticada certamente resultará em diagramas com outras profundidades que não as permitidas somente em duas dimensões, mas o traço que religará os diversos pontos sempre será o traço de uma regra euclidiana, sempre será um feixe newtoniano gerenciado com mão de ferro.

O que nos permitirá situar as modernidades é esta rede toda que define e articula o cotidiano, e por isso também há muito de modernidades no senso comum. As dualidades, as dicotomias, as lógicas binárias e as razões analíticas e instrumentais, bem como a política e o choque na busca por verdades, esses são os jeitos modernos de colocar um problema e encaminhá-lo; no cotidiano, temos que lidar também com a experiência do disparate, tendo a intuição como um julgamento muito mais imediato e natural, tanto consciente quanto não; as modernidades, entendidas como os pensamentos binários, como as lógicas seriais ou lineares, tudo são como filtros que fizemos a nós mesmos, e que impusemos então ao nosso modo de vida como matriz do olhar.

O racismo é uma distribuição vigente sem fundo científico.

O machismo também é.

Não cabe atualizar a discussão sobre como as formações históricas agenciam não somente a forma de colocar alguns problemas, mas todo o resto que lhe é co-extensivo, todas as cadeias que ativam e concorrem para a colocação de um problema. Cabe, isso sim, lembrar novamente Michel Foucault, e no que seria sua transição ao século deleuziano dos controlatos, deixar no ar a pergunta sobre como e quanto as modernidades em geral e os desejos modernos em cada particular influenciaram na emergência dos dispositivos disciplinares e dos microfascismos, o quanto as lógicas binárias (embrulhadas ou não em papel científico) contribuíram na ascensão e na queda dos impérios da burocracia, e o quanto sobreviverão quando este império começa a ruir sobre as superfícies lisas da atualidade.

Procurando as diferenças abissais e escalonando sujeitos e objetos, indivíduos e sociedades, brancos e pretos e amarelos e vermelhos, homens e mulheres, sadios e doentes, sãos ou loucos... marcando o que se pode saber e fazer acerca destas diferenças a partir de seus carimbos... assim sendo, não terá faltado a índole de religar-nos todos, homens e mulheres ao mundo, ou pelo menos o interesse de deixar-nos viver sem mediações doutas e impositivas? Na falta de um índole de religação, não terá faltado também a possibilidade de bioética, de biopolíticas e de toda sorte de ecologias híbridas? O quanto as categorias influenciaram e influenciam no cotidiano? E quanto o desejo de fazer Ciência contribuiu nisso? É um caminho muito longo... Sobre a modernidade, cabe achar os modernos, apresentar-se e procurar apontar o que achamos de sua constituição. Sobre as modernidades, cabe saber de seus ardis e vigências no cotidiano, e sondar seus efeitos.

O não-moderno intervirá nesta sabatina e dirá: amigos, calma lá! Tudo vale e não me interessa desqualificá-los em nenhum ponto: procuro é ciência E política E sujeito E objeto E humano E não-humano E indivíduo E sociedade E cultura E natureza E pergunta E resposta E passado E futuro E direita E esquerda E teoria E prática; Eu E as coisas todas. Procuro ciências E sensos comuns. Meu olhar percorre ENTRE[iii], busca o caminho do meio, o interstício nas redes, lugar onde até as essências trocam propriedades. Procuro principalmente os pontos de articulação e mediação, limiares de mútua implicação ao invés de mútua exclusão. Procuro a co-extensão. Ouço vozes de todos os lados, e são palavras que portam também outras vozes; ouço linguagens ancestrais num tempo outro da ambiência toda; ouço o rumor das coisas, o frigir das máquinas; ouço todo o equipamento coletivo a movimentar-se. Percorro os caminhos das redes, mas percebo seus pontos de tensão e escape, e como eles movimentam-se em mim à medida em que me movimento neles. Venham cá na janela e vejam isso que vejo agora, um fabuloso e caldaloso rio de híbridos que brotaram sob as fundações dos tribunais de privilégios enquanto ficava-se lá longe em acirrado conclave; vejam que caudaloso e heterogêneo é este rio que corre sem margens contra todas as possibilidades de purificação! Vejam como neste fluxo a sociedade E a natureza E as coisas E os deuses correm juntos, tudo em orquestra! Tomem seu coletes salva-vidas e saiamos desta comunidade absurda no rumo de um mergulho neste mundo, mergulho tão pessoal como um primeiro e inesquecível mergulho, tão singular quanto nossa experiência pode ser contra toda sorte de categorias e privilégios. Prometo que não os levarei até os navios afundados. Sintam: eis a amizade não-moderna contra toda sorte de conclaves modernos.

Tantos os sábios modernos quanto os reles modernos, preocupados com as categorizações e os privilégios primários, com as lógicas binárias e com a subdivisão deste mundo disperso, eles tiveram a cega atenção e não viram a proliferação louca dos híbridos sob todas as tentativas de categorização pura; cegos no rumo de categorias, princípios e razões verdadeiras, foi o real que perderam; ergueram-se pontes intransponíveis que nos separavam do que estava mais próximo, do que estava mais tangível; as modernidades extirparam o corpo do mundo, e dissecaram-nos todos, corpo e mundo. Preocupados com o trabalho de purificação, as modernidades não perceberam um movimento de hibridização que elas mesmas permitiam, as fundações da modernidade deslizavam enquanto seus sábios voltavam-se cegos para o problema dos métodos e privilégios. Negligenciaram a proliferação dos híbridos, das soluções E ... E, da experiência entre as redes, mas suas formas de operação e suas categorias de filiação criaram seus maiores bastardos.

O corpo é um deles.



[i] Esta sessão procura sintetizar uma interpretação pessoal no âmbito das discussões sobre o que seja e como tenha se constituído isso que normalmente chamamos de modernidade. Mesmo que a sessão não concorde plenamente ou ecoe literalmente as discussões que ele propõe, sugerimos a instigante obra de Bruno Latour como referencial inicial de discussão. Ver, especialmente: Bruno Latour. Jamais Fomos Modernos – Ensaio de Antropologia Simétrica. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1994.

[ii] Ver: Michel Foucault. Vigiar e Punir. Petrópolis: Vozes, 2002 & Gilles Deleuze. “Post-scriptum sobre as Sociedades de Controle” in Conversações. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1992. p.219-226.

[iii] “É que o meio não é uma média; ao contrário, é o lugar onde as coisas adquirem velocidade. Entre as coisas não designa uma correlação localizável que vai de uma para outra e reciprocamente, mas uma direção perpendicular, um movimento transversal que as carrega uma e outra, riacho sem início nem fim, que rói suas duas margens e adquire velocidade no meio”. Ver: Gilles Deleuze & Félix Guattari. “Rizoma” in Mil Platôs – Capitalismo e Esquizofrenia, Vol.1. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1995. p.37.

Reinados

Reinados. Dizem que são três os grandes reinados: o reinado humano, o reinado natural e o reinado técnico. O reinado humano seria o nosso próprio domínio, o reinado dos indivíduos, da cultura e das sociedades que eles constituem. O reinado da natureza, reinado de faunas e floras, de formas geológicas, variações climáticas, conjunturas solares e arranjos astrais: o domínio cósmico. No terceiro reinado, domínio das coisas, tudo aquilo que não é natural tampouco humano: objetos, utensílios e máquinas diversas, o reinado do fabricado.

Três reinados, vale dizer, sob uma Coroa unificada.

A Coroa antropocêntrica, continente.

Por ora, destacar os três reinados será de grande utilidade. Em primeiro lugar, para situar uma das divisões modernas que está cotidianamente presente no chão da vida, e que certamente está presente no interior das academias. Em segundo lugar, para apontar o evidente antropocentrismo vivido no âmbito do que chamam de reinado humano, antropocentrismo que em seu limite pode também ser confundido até com a embriaguez do narcisismo, aquela que gera alguns dos atos mais ardilosos e hostis. Depois, ainda para dizer que esta divisão de reinados pode não fazer sentido se evidenciarmos a complexa co-extensão do humano com os reinados natural e técnico como nossas porções inevitavelmente não-humanas de vida, porções com as quais vivemos na mais radical articulação.[i]

Humanidade, sim, mas natureza e técnica também.

É difícil distingüir os três reinados com o cabedal lingüístico que temos, mas o próprio senso comum já os tem tão bem distribuídos que, se não permanecemos muito tempo longe dele durante nossas pesquisas, ele também é material de análise cartográfica: o domínio humano somos nós, e todos parecem saber quem são os humanos; somos eu, você, eles, homens, mulheres, crianças, idosos. Ora, nós. O segundo domínio é o da natureza, e também não parece haver dificuldade em classificá-lo: falamos da fauna e da flora, das geologias, dos climas. Sobre o terceiro, o das coisas, tudo também parece tranqüilo. É quase ilógico não saber a diferença entre um homem ou uma mulher, um carvalho ou uma baleia e uma chave de fenda.

Imediatamente podemos objetar, porém, que há muito de natural no homem, que ele também faz parte da fauna; e que há muito de humano na técnica, issos porque uma chave de fenda é um invento humano; e que natureza e técnica viajam sempre abraçadas, nem que seja pelo motivo de que o invento é uma transformação de um material originário. É aí reside um problema às lógicas da modernidade. Não bastará fazer um estudo ou uma apresentação do diagrama puro e recortado, dos seus diferentes reinados, ainda que sob a mesma Coroa. É necessário um estudo aplicado à forma como este diagrama está distribuído co-extensivamente hoje em dia, e no nosso entorno, ou seja, sobre a forma como num coletivo co-existem humanos, natureza e técnicas.

A turbina de um avião precisa de um fluxo de ar que ela possa queimar, e ao queimá-lo ela também acelera o fluxo de ar. O ar que atravessa a turbina, circunstancialmente, faz tanto parte do ambiente quanto parte do motor; a turbina é uma máquina sofisticada ao ponto de conseguir realizar não somente seu trabalho mecânico, mas o trabalho mágico de acelerar os elementos. O motor é acionado pelo piloto, o que faz com que tanto a combustão quanto a velocidade e a densidade do ar estejam, naquele momento, intermediadas pela técnica e pela ação humana. Se a cadeia de relações permanecer coesa, vou de Porto Alegre ao Rio de Janeiro em pouco menos de duas. Mas quem voa este sistema complexo? O ar, a turbina ou o piloto?

Tomemos outro fato qualquer, um instante qualquer, e façamos o exercício de desdobrá-lo em seus diferentes reinados: como eu, aqui sentado à minha cadeira de escritório, digitando e editando esta proposta de tese na tela de meu computador, utilizando um software editor de texto, com os livros espalhados sobre o tampo da mesa de madeira, também os cigarros, os fósforos, um cinzeiro e marcadores de página. As palavras surgem no pensamento à medida que olho para a tela branca ou releio o que nela já redigi, e no surgimento do texto na tela também surge um certo sentido de argumento, voltam atualidades da memória, histórias e trechos de livros que posso apanhar ou não na estante aqui ao lado. Rumores de cúmplices, alguns conselhos já ouvidos, telefonemas. Traduzo tudo isso, pensamentos, memórias, conselhos, histórias, traduzo mecanicamente em pressão da ponta dos meus dedos sobre símbolos de um teclado com interface lingüística, e ele me permite criar palavras, tantas quanto eu quiser. E assim componho as frases numa tela plana que apresenta a futura página na forma em que ela será impressa. Tanto escrevo linearmente quanto recorto e colo diferentes parágrafos, e nisso a máquina já não é somente um suporte, mas uma tecnologia co-extensiva da minha inteligência. Formo o corpo do texto em interação com a eletrônica, e se ela não fala sem mim, já duvido conseguir falar sem ela: escrever à mão é um ato que já vai dolorido. Hoje chove e as janelas precisam ficar fechadas, o que interrompe o fluxo de ar e aumenta consideravelmente o calor do verão da capital gaúcha. Respiro, suo e bebo água. Quem escreve esta tese? Eu ou nós?

Quem voa é também quem escreve.

O coletivo.[ii] O dispositivo.[iii]

Nós somos parte dele. Natureza e técnica também.

Nós não reinamos dentro do coletivo.

Cada reinado entra em relação com os outros dois, e de cada relação particular surge uma entidade nova, entidade onde cultura e natureza ou corpo e máquina, por exemplo, encontram seus cruzamentos e mútuas dependências: co-extensões. Ocorrem não somente articulações, mas também trocas de essências no que seria uma grata promiscuidade entre os reinados aos olhos da epistemologia tradicional: é onde o homem vira máquina, onde a máquina fica meio orgânica e onde a natureza recria ecologias entre riquezas, extrações e dejetos. Mesmo que determinados pássaros não consigam cantar em gaiola, alguns peixes não sabem mais viver na água limpa. Cada entidade surgida entre os reinados seria, antes de uma entidade autônoma, uma entidade anômala, híbrida. Uma entidade que guarda ainda relativa autonomia, mas que encontra-se amarrada às suas relações diretas entre os reinados, e que também estabelece com os outros reinados trocas essenciais.

Temos híbridos de híbridos, anomalias de anomalias: cada entidade guarda em si um pouco de cada um dos reinados, sua proximidade e correlação são proporcionais ao nível de hibridização que apresentam, e ao tanto que conseguimos procurá-las. É possível que tarefas comuns sejam híbridos mais evidentes que uma erupção vulcânica, por exemplo, mas as recentes alterações do clima global mostram como a própria geologia incorpora-se e responde aos domínio humanos e técnicos, hibridiza-se num único agenciamento de calor e estafa. É porque tudo isso, os diferentes reinados, são somente modos de diferenciação da própria matéria, do corpo pleno da Terra[iv]: são a nossa cosmogonia mais geral.

A autonomia não é uma condição, mas uma tendência, um limite. Ela não acontece nos reinados, mas em cada entidade singular, em cada ator. Em qualquer dos três reinados dos quais estamos tratando, para quaisquer de suas entidades, a autonomia total é uma espécie de fora, de relatividade absoluta e, por isso, absurda. Devemos tratar a autonomia como uma tendência, a tendência de diferenciação e auto-regulação presente em cada entidade, cada qual apresentando gradientes de autonomia paradoxalmente de acordo com o nível de vinculação que estabelece com outras entidades, entre os reinados. O mais bem vinculado e, por isso, essencialmente cambiante é aquele que apresenta-se como o mais potencialmente autônomo.



[i] Ver: Bruno Latour. “Um coletivo de humanos e não-humanos” in A Esperança de Pandora. Bauru: EDUSC, 2001. p.201-246. & Bruno Latour. “Segunda divisão: as associações de humanos e não-humanos” in Políticas da Natureza – Como fazer ciência na democracia. Bauru: EDUSC, 2004. p.134-144.

[ii] Bruno Latour substitui a noção de sociedade pela noção de coletivo: a sociedade seria demasiadamente humana, e a preocupação de Latour é justamente incorporar à vida cotidiana os outros reinados, o natural e o técnico. O coletivo seria a anti-arquitetura deste encontro entre diferentes reinados, entre as redes como anti-arquitetura de hibridizações, agenciamentos, articulações e traduções. As repartições também querem trazer o nível de análise para o cotidiano, para preocupar-se também com uma teoria para o cotidiano, com traduções possíveis dentro do modo de vida existente. Ver: Bruno Latour. “Um coletivo de humanos e não-humanos” in A Esperança de Pandora. Bauru: EDUSC, 2001.

[iii] “Através deste termo tento demarcar, em primeiro lugar, um conjunto decididamente heterogêneo que engloba discursos, instituições, organizações arquitetônicas, decisões regulamentares, leis, medidas administrativas, enunciados científicos, proposições filosóficas, morais, filantrópicas. Em suma, o dito e o não dito são os elementos do dispositivo. O dispositivo é a rede que se pode estabelecer entre estes elementos. Em segundo lugar, (...) entre estes elementos, existe um tipo de jogo, ou seja, mudanças de posição, modificações de funções, que também podem ser muito diferentes. Em terceiro lugar, entendo dispositivo como um tipo de formação que, em um determinado momento histórico, teve como função principal responder a uma urgência. O dispositivo tem, portanto, uma função estratégica dominante.” Ver: Michel Foucault. “Sobre a história da sexualidade” in Microfísica do Poder. Rio de Janeiro: Graal, 1999. p.244.

[iv] Ver: Gilles Deleuze & Félix Guattari. “28 de Novembro de 1947 – Como criar para si um Corpo-sem-Órgãos” in Mil Platôs – Capitalismo e Esquizofrenia Vol.3. op. cit. p.9-29.

Bicho

Bicho. Mas imaginamos que, no mais ancestral, está a nossa animalidade.

O bicho-homem.

Imenso enxame de gente que cobre o mundo, bichos brancos, bichos pretos, bichas amarelas e toda a sorte de bichas mestiças, feições distintas, silhuetas díspares, singularidades informais, tanta beleza e tanta briga de raças. Imenso mundo onde ninguém é igual, lindo e múltiplo mistério humano que não haveremos de deixar acabar. Riscam em setas trajetos hipotéticos que percorrem e remontam nossas origens e errâncias pelos cinco continentes. Oriente do Ocidente ou Ocidente do Oriente? Dizem que atravessamos mares, percorremos rios e transpassamos as mais desafiadoras cordilheiras; que lutamos contra as feras e que fomos feras quando a guerra pareceu-nos o festival de boas-vindas. Prodigiosas façanhas. Em choças ou mesmo ao ar livre, amamos uns aos outros e até outros daqueles que viviam entre os demais. Que expliquem o amor pela genética, isso lá é problema deles. Ainda andávamos descalços, sem ciência. Procriávamos. Vivíamos. Animais nômades, depois territoriais. Depois tudo o que já conhecemos, ou tudo que interpretamos.

Numa fábula ancestral, penso haverá de ter um único e primeiro bicho humano, o elo perdido, mas ele deverá ter nascido de uma outra raça, mas de duas outras espécies diferentes: o elo perdido deve ser mesmo um casal improvável, a mestiçagem original, uma cópula entre as espécies com troca de propriedades essenciais. O elo perdido são núpcias entre dois reinos.[i] Seríamos somente um galho também caótico dentro do embate entre os reinados.

Mas imaginamos que a direção antropocêntrica é toda uma nova direção do cerne, do caule da grande história natural. Refestelamos. Cara a cara no espelho, embriagados de nós, nem mesmo pensamos que podemos ser a decadência dos macacos. Terão os símios reinado ou voltarão a reinar no futuro, quando estivermos de volta ao planeta dos macacos? Toda a civilização torpe não é nada frente à imensidão do tempo e do espaço vital, estúpida e primitiva imanência que embala tudo e que tudo mistura na mesma matéria sem dar-se a sabe quem ou que é.

O humano é só uma pincelada. Um risco fraco em superfície lisa.

E cretino: ainda tentará levar tudo consigo!

O narcisismo antropocêntrico empreende nosso destacamento como raça superior, como reinado superior, e nisso é também é nossa forma mais arraigada de racismo. Prendemos os símios em zoológicos talvez como prendamos os velhos em asilos, os loucos em hospícios, os bandidos na cadeia e as mulheres na cozinha. Assim como jogamos nosso lixo para fora dos limites da cidade, lá para perto de onde ficam os desamparados que ainda fazem sopa com a lavagem dos porcos, outra categoria de gente que preferimos manter longe dos nossos olhos demasiado humanos. Fugimos do espelho da nossa própria decadência transformando a crueldade da realidade em fator de exposição. A fantasia da nossa redenção termina por completo com a possibilidade de olharmos as evidências mais reais da nossa vida coletiva, e seus resultados.

No fim, o que nos resta é só um corpo.

E já é muito.



[i] Ver: Gilles Deleuze & Claire Parnet. “Uma conversa, o que é, para que serve?” in Diálogos. op. cit.

O corpo

O corpo. Sim, sim: naturalmente, nosso corpo é nossa carne, nossa porção bicho-homem, o imemorial. Nossa carne é nossa porção individual de vida dentro do longo tempo sucessivo da Terra, dentro da robusta caminhada das espécies, nossa herança mais longa e mais íntima, nossa ousadia prévia e genética sempre limítrofe. Como nos foi ensinado no princípio, é cabeça, tronco e membros. Uma cabeça moldando uma face com sobrancelhas sobre dois olhos, nariz e boca ladeados por duas orelhas, bigode ou barba dependendo da condição. O corpo é uma boca e sua língua, uma boca e seus dentes, seus palatos, sua gengiva e amígdalas. O corpo é a saliva. É seu pescoço estendendo-se num tronco, tórax e abdômen, espaldas e ancas, seios dependendo da condição e umbigo dependendo do cirurgião. Algum suor. O corpo são os braços e pernas articulados em cotovelos, pulsos, joelhos e tornozelos, por fim envergando dedos nas pontas. Dedos também articulados, falanges e falanginhas, e as unhas em suas pontas. O corpo é o sexo. Cada qual à sua maneira, mesmo que tratemos de gêmeos.[1]

O corpo também é tudo aquilo que está envolvido neste pacote exterior delimitado pela pele. Desde o advento da dissecação, descobrimos que o corpo também é o cérebro e toda a distribuição dos nervos, que ele é o coração e toda a distribuição dos vasos e das artérias, o corpo são os pulmões e todas as vias respiratórias e as vias digestivas, descendo da boca ao estômago e ligando-se aos intestinos delgado e grosso, e daí ao cu. O corpo são suas carnes, seus nervos, seus ossos, suas cartilagens e também seus líquidos; seus órgãos, seus aparelhos. Vísceras, entranhas. E também é tudo aquilo que as vísceras fazem, aquilo no que elas resultam em interação dinâmica: o corpo não é só um coração, vasos e artérias, mas um sistema circulatório que pulsa e corre dentro dos limites da pele; o corpo não é somente um pulmão, mas um aparelho respiratório enchendo e esvaziando de ar os nossos alvéolos, distendendo a caixa torácica e reimpregnando nosso interior de oxigênio; o corpo é um trajeto do alimento da boca à urina ou à merda. E é também a indigestão, o enfarto, a constipação, a falta de ar e os acidentes vasculares.

Ele é também tudo aquilo que já lhe foi desvendado ainda mais intimamente, quando o corpo já não pode mais ser desvendado a olhos nus nem mesmo através da dissecação. Quando passa a ser objeto do laboratório, então o corpo também é tecido e é célula, são bombas fisiológicas explodindo aqui e ali, potenciais atravessando membranas, toda uma multitude preenchendo e percorrendo total e agilmente a complexidade das suas entranhas: são ribossomas, mitocôndrias, complexos de Golgi, lisossomos, linfócitos, eritrócitos e plaquetas, hormônios, neurotransmissores e hélices de DNA. Abismo que sempre esteve profundo demais para o nosso alcance, quando perseguimos os dobramentos que nos levam à interioridade do corpo, perseguimos o infinito no rumo do infinitesimal, uma espiral que verte adentro e sempre ficará perdida no momento que toca o mais imprevisível da nossa constituição original.

Da pele pra dentro, um abismo do corpo.

Mas o corpo já não é só isso.

Não é o caso de retomar o mecânico de Descartes apresentado por Shultz e Shultz[i], a menos que queiramos falar do contraponto à imaterialidade da verdade; tampouco relembrar La Mettrie[ii], como fez Rouanet[iii]; não é o caso de pensar no sopro divino sobre as engrenagens, tampouco na figura moderna do homem-máquina. No que diz respeito a uma problematização contemporânea acerca do corpo, Gilles Deleuze e Félix Guattari resgatam o corpo-sem-órgãos[iv] de Antonin Artaud para colocá-lo na forma de uma máquina desejante agenciada nas condições materiais de um coletivo; corpo-sem-órgãos como o processo de produção cotidiana de um corpo articulado materialmente num modo de vida específico, formando jeitos de ser e viver em co-extensão com o ambiente onde está inscrito.

Interessados que estavam na constituição cotidiana da experiência coletiva, nossos intercessores franceses estariam hoje perplexos com as transposições de nível que borram fronteiras entre humanos e não-humanos. Aparentemente livres das dicotomias entre indivíduo e sociedade, já aceitávamos que as dimensões afetivas e lingüísticas são produzidas coletivamente. De agora em diante, borrados os limiares da dicotomia entre nossa natureza e nossa cultura, a biotecnologia nos fará pensar sobre como a natureza de nossa própria carne também pode ser produzida por aquilo que é a cultura de nossa carne – ficção científica tornada realidade por conta dos avanços mais recentes da tecnociência.

A emergência da biotecnologia borra as fronteiras orgânicas que julgávamos existir entre nosso dentro e nosso fora, as fronteiras entre fisiologia, neurologia, informática e elétrica. Após a emergência do ciborgue[v] e do homem pós-orgânico[vi], o corpo-sem-órgãos não poderá ser somente figura de inspiração poética, marcando o eterno retorno de devires imateriais. O avanço das biotecnologias dá sinais de uma evolução onde o funcionamento dos órgãos de um corpo, cada vez mais, pode ser mediado ou mesmo produzido em contato com aquilo que considerávamos um espaço de exterioridade ao organismo.

O novo elo perdido não será justamente o homem pós-orgânico?

Avanços na área da pesquisa em saúde desenvolvem sistemas computacionais que captam e armazenam padrões de impulsos nervosos e/ou musculares na forma de informação digital; a partir da decodificação e análise destes bancos de dados, são desenvolvidos novos suportes tecnológicos que possibilitam a interação entre a informática e o corpo. Os impulsos nervosos e/ou musculares, decodificados e analisados por uma base computacional, permitem que estes novos suportes tecnológicos – conectados ao organismo humano – simulem ou recriem desde sensações até movimentos corporais.

A informática corporal já desenvolveu novos biochips ou wetchips no cruzamento entre circuitos eletrônicos e tecidos vivos, construindo um chip de hardware lógico e software físico que inaugura uma profunda hibridização entre matérias orgânicas e inorgânicas num mesmo sistema funcional. Pesquisas com estes novos biochips procuram devolver a visão a cegos, tratar doenças como os males de Parkinson e Alzheimer e intervir em casos de distúrbios nervosos como a depressão e a síndrome do pânico.

Outro campo de avanços bastante promissor tem sido a engenharia corporal, onde cientistas e projetistas não medem esforços na construção de próteses biônicas. Recentemente, pesquisadores norte-americanos foram festejados pela criação da primeira mão artificial; sua estrutura funcional, articulando computadores, tendões, músculos, sistema nervoso e dedos protéticos através de um dispositivo que decodifica e emite sinais elétricos, já permitiu ao usuário desenvolver tarefas complexas como digitar o teclado de um computador. Já não parece distante o tempo onde imaginamos poder fabricar órgãos inteiros, assim como outras estruturas corporais, talvez produzir ossos, medulas, córneas e mesmo fluidos corporais. Já pensamos que não será uma questão de possibilidade, mas uma questão de tempo até que se chegue ao ponto ótimo de compatibilidade entre organismos vivos, projetos, substâncias químicas, impulsos elétricos e computadores. No ponto de compatibilidade total, o fogo em nossas mãos nos dará o poder de criar a própria vida, e a cibernética terá sido a mais precursora das ciências biônicas.

Utilizando uma terminologia usualmente aplicada às intervenções no hardware, haverá o upgrade corporal. Sua corrida revelará a redenção de muitos de nossos problemas demasiado humanos ou uma endocolonização nunca antes vivida pela nossa civilização, colonização através de todas as fronteiras. Perdidos entre alarmistas e entusiastas de nossa nova condição, mas não raro percebendo suas aglutinações nas diferentes instâncias de exercício do poder, não sabemos mais se resgatamos o além-do-homem nietzschiano ou a fábula do Prof. Frankenstein; sabemos que o primeiro não teve o verdadeiro sopro de eletricidade, e que, no segundo caso, não só a eletricidade conseguiu dar vida a seus pedaços de carne reciclados.

O hibridismo entre humanos e não-humanos pede problemas por sua vez híbridos. Quando o campo nu da natureza passa a ser rasgado pelos tratores da cultura – e parece-nos cada vez mais possível e cotidiano pensar em navalhas na carne, se tomada desta ansiedade civilizatória –, a temática da produção e da reprodução tecnológica da vida deverá preocupar todas as ciências humanas. Doravante, ciências humanas só poderiam ser definidas como aquelas preocupadas com a nossa humanidade, e nisto terão que preocupar-se de nossa bioética, de nossa biopolítica e de nossa ecologia híbrida.



[1] Esta pode ser somente uma configuração suposta, isso porque é também um corpo que temos depois de ter-lhe amputado ou extirpado uma das partes, ou é também um corpo que temos quando, ao nascer, as tivemos de forma diferente da usual: apresentadoras com seis dedos são um corpo, presidentes com nove dedos são um corpo, pintores que cortam orelhas também são um corpo. Nota do autor.



[i] Ver: Duane Shultz & Sydnei Shultz. História da Psicologia Moderna. op. cit.

[ii] Ver: Julian Offroy de La Mettrie. L´Homme-Machine. Paris: Denoel, 1981.

[iii] Ver: Sérgio Rouanet. “O homem-máquina hoje” in Adauto Novaes (org.). A Ciência Manipula o Corpo. São Paulo: Cia. das Letras, 2003. p.37-64.

[iv] Ver: Gilles Deleuze & Félix Guattari. “28 de Novembro de 1947 – Como criar para si um corpo-sem-órgãos” in Mil Platôs – Capitalismo e Esquizofrenia Vol.3. op. cit. p.9-29.

[v] Ver: Donna Haraway & Hari Kunzru. Antropologia do Ciborgue – As vertigens do pós-humano. op. cit.

[vi] Ver: Paula Sibilia. O Homem Pós-orgânico – Corpo, subjetividade e tecnologias digitais. Rio de Janeiro: Relumé Dumará, 2003. & Paula Sibilia. “O corpo obsoleto e as tiranias do upgrade” in Revista Verve #6. São Paulo: Núcleo de Sociabilidade Libertária da PUC/SP. Out/2004. p.199-226.

A dádiva

A dádiva. Que falar da dádiva do corpo?

O que falar do ponto onde a carne vira aquilo que reconhecemos como um sujeito, onde a carne parece assumir uma identidade própria, um rosto, um nome, quando parece fazer sentido em si mesma, angariar alguma história, tornar-se algo de uma subjetividade? O que falar da carne quando ela vira gente, quando ela pensa, quando adquire uma certa consciência de si e do seu redor, quando resgata da memória tanto uma história pessoal quanto uma história universal, carne com raciocínio puro e matemático ou abstrato, ilógico, carne artista, intelecto de referências, peito cheio de valores, arcabouço de afetos? O que falar da carne que ama, que sente medo, que angustia, que vive momentos culminantes de transe e gozo?

Existe toda esta outra espessura do corpo, espessura composta de uma fibra cujo funcionamento somente supomos qual é, dádiva da própria carne que é tornar-se alguém, individualizar-se, expressar-se singularmente menos no tempo da Terra do que no tempo de uma vida; uma carne que produz uma biografia que durante o tempo de uma vida concorre com a herança imemorial das espécies para dar-nos uma consistência propriamente individual.

Quem já conseguiu dizer como isso acontece?

Etologia e ontologia. Filogenia e ontogenia. Um corpo não é somente um punhado vivo e pulsante de carne dentro da longe corrida das espécies, mas o ponto onde um destes punhados de carne vira alguém, vira uma pessoa, e nisso ganha dia-a-dia uma consistência cada vez mais singular, radicalmente única.

É porque o corpo tem um sistema circulatório que agiliza o fluxo sangüíneo em todos os seus recantos, sim, mas também tem um sangue que ferve em circunstâncias específicas, ou porque o corpo mantém o sangue frio por método, ou quando ficas de sangue doce por preguiça, e então decretas algum domingo fora de hora, devir de herói nacional. É quando o teu corpo não só emite som, mas canta repetidamente um trecho até então perdido de alguma música de sucesso do passado, quando fala e acentua uma opinião pessoal dentro das discussões vigentes mostrando seu próprio vocabulário e seus próprios cacoetes, quando ritualiza de forma engraçada o paradoxo de uma piada, este dom, quando é reconhecido pela qualidade de um gesto, ou quando afirma veementemente uma ênfase deixando crer que aquilo é uma visceral opinião sobre o assunto.

O corpo tem esta dádiva, a dádiva de tornar-se alguém, uma dádiva que resulta em ato e faz explodir sua solidão biológica original em milhares de cadeias de relacionamento que conectam o corpo ao mundo onde ele vive: o corpo não é somente sua memória e seu pensamento em meio à cultura geral, mas sua expressão material nesta cultura geral, é toda a gama dos seus afetos, desde que eles também sejam vividos em meio aos sentimentos e frissons coletivos, é a sua linguagem deparada e reconstruída com a fala, a escrita e o gesto dos outros. A carne não só movimenta-se, mas move e articula o corpo com o que está ao seu redor, parteira de mundos: ela cria uma caligrafia, procede musicalmente, angaria algum estilo, toma de assalto alguns muros da cidade ou algumas páginas de papel; a carne dá cursos, orienta doutorandos, escreve teses, participa de bancas. Corpo cuja carne tem a dádiva de interpretar o mundo em que vive, criar e manter rituais sociais, fabricar coisas, utilizá-las, às vezes até com ganas de chegar em outra condição futura, carne que projeta e então corre atrás.

O corpo não é só um jeito de andar, mas também as pegadas que permanecem e desafiam as ondas do mar, é um correr que permanece enquanto o suor não seca das roupas, um dançar acompanhado ou só, mas também uma co-extensão da pista de dança. É o cheiro do nosso amor no travesseiro da cama. O corpo é a fome e a sede em frente a um prato e um copo, é o júbilo e os brindes, o cansaço e uma rede em estendida, a alegria e a tristeza perante condições reais de vida, o amor e o ódio que sentimos com e pelo que nos rodeia.

Por isso que já é muito termos só um corpo.

O corpo excede brutalmente a nossa carcaça de carne.

Somos senhores e senhoras de uma pequena parte da nossa individualidade. Não bastasse ser uma entidade complexa que unifica um sem-fim de procedimentos desde seu nível celular até seu nível mais global, o corpo ainda é tudo aquilo que resulta desta complexidade na forma da expressão viva de um ser, num modo de vida. O corpo estende-se pelo mundo e o mundo estende-se pelo corpo.

Muito se gastou tentando descobrir onde, exatamente, acontecem estas núpcias entre o que até então era considerado biológico e o que até então era considerado cultural. Não raro, a tendência das explicações foi acentuar o simplismo e nisso procurar mais profundamente as causas de tudo em uma das pontas de outra bifurcação à moda moderna. Outro paradoxo fundamental do corpo: falamos de uma carne em que a dádiva de produzir um modo de vida foi instalada de forma integrada e materialmente, de um corpo que age inteiro e desde suas entranhas para fabricar seu modo de vida; falamos de uma racionalidade visceral em um corpo mergulhado no mundo que, ao invés de percebê-lo de fora, amputado ou secundário, dele participa radicalmente, que afeta e é afetado, que articula e é articulado, de um corpo que dá caráter orgânico às sociedades sobre os limiares de sua diferenciação biológica original.

O corpo funde biologia e cultura numa produção única de vida.

Creio que este também seja um sentido para biopolítica.[i]

À margem do racionalismo puro ou aplicado, território da razão suficiente e das compartimentalizações, território da cultura como algo deslocada da materialidade da vida, à margem existem janelas que permitem uma imersão no materialismo. Em diferentes ciências humanas, é cada vez mais comum o tema do corpo.[ii] Diferente do tema do corpo tecnocientífico, objeto extirpado e tomado como dogmático e previsível, falamos de um corpo vibrátil[iii] e articulado que depõe tanto contra a claustrofobia da idéia como instância privilegiada quanto contra a claustrofobia de um ser extirpado do mundo. É preciso romper os vetores que recortam o corpo em si mesmo, partindo-lhe em pedaços mal realçados, e também romper os vetores que recortam o corpo de suas amarrações com o seu suposto fora. É preciso entender suas núpcias e trocas essenciais.

Interessa-nos redefinir o corpo em pelo menos dois sentidos: primeiro, num sentido propriamente individual, definindo tanto uma originalidade biológica quanto um funcionamento somático integrado e potencialmente criativo. Contrária às concepções divisionistas, esta redefinição implica não compreender ou aceitar as divisões tradicionais entre alma e corpo, entre mente e corpo. Uma tal concepção de corpo não só é contrária às concepções divisionistas como também às concepções finalistas, e assim propõe que esta carne seja dotada de uma originalidade criativa sempre nos limites da reinvenção (até mesmo genética[iv]).

Dentro e fora também são limiares. O corpo vive em co-extensão inevitável com o fora e um estudo do corpo será um estudo sobre a inscrição desta originalidade biológica na materialidade do cotidiano. Uma originalidade biológica de funcionamento integrado vai estar em co-extensão com a circunstância que ela habita: uma política do corpo sempre será também uma política das coisas e uma política da natureza, toda uma complexa poética do habitar.[v]

Nossa dádiva consiste em ter uma carne com potencial de recriar a poética do habitar cotidianamente, e assim recriar o nosso modo de vida. Para tanto, nela, tudo concorre: meu pensamento, meus afetos, minhas memórias, minhas linguagens, meus limiares de vontade e escolha, mas também minhas vísceras. Tudo isso concorre em co-extensão com o reinado das coisas e o reinado da natureza.

A dádiva acontece no coletivo, no dispositivo.

O corpo acontece no dispositivo.

Mas o dispositivo me excede. O quinhão que me resta é o corpo, e mesmo assim é um quinhão precário. Temos muito pouco domínio sobre o mundo e, aliás, temos muito pouco domínio sobre nós mesmos. Somos muito menos pensantes do que imaginamos, somos muito menos conscientes do que imaginamos. Nosso limiar de discernimento é ainda pouco perto de tudo o que passa em nosso corpo quando vivemos e nos tornamos quem somos, enquanto o mundo acontece em grande medida à nossa revelia. Nossa razão é ainda menos importante quando nos deparamos com nossos paradoxos fundamentais. A dádiva do corpo é antes ter esta capacidade precária de transfigurar a vida conforme seus limiares de vontade do que propriamente ter consciência pura de estar fazendo isso. Muito se passa às nossas costas, num outro registro. Uma pessoa, um alguém, isso é algo que caminha sempre sobre uma corda bamba, e que faz muito pouco sentido ou é um todo muito pouco coerente. Qualquer pessoa caminha por muitos limiares de despersonalização, e não são poucas as que pessoas que efetivamente definham ou somem.

O que nos cabe é viver esta dádiva precária, justamente do ponto solitário onde se está em contato direto com tudo o que nos rodeia, tendo como base a porção de nós mesmos que nós conseguimos reconhecer, utilizando os recursos que estiverem à sua mão ou forjando suas próprias ferramentas, usando tanto da sua criatividade quanto puder, de preferência procurando expandir os limiares de ação de sua vontade com o exercício cotidiano da iniciativa.

Não há nada mais a fazer.

É preciso espreitar o corpo e jogar-se nas brechas que ele nos proporciona.

Manifesto solícito. Enquanto continuarmos presos aos mesmos referenciais, às mesmas questões já tanto pisoteadas e ao mesmo tipo de alternativas que daí sempre emergiu, bom, então é certo que não teremos nem mesmo as condições necessárias para achar qualquer tipo de solução que faça fomentar a resistência; e isso para não ter que afirmar já neste momento que este tipo de solução, na forma de uma resposta unitária e messiânica, talvez nem mesmo venha ou precise existir.

Aliás, a SOMA não pretende curar ninguém.

A questão é deixar de lado o fetiche que produzimos em torno do sempre-o-mesmo, daqueles mesmos problemas e soluções, das mesmas doutrinas, idéias e práticas que atravessam uma vida como se fossem imunes, um vício de recorrência.

Ao contrário, devemos sempre ter o cuidado de incorporar e produzir outros e novos desafios, tomando os encontros como possibilidades de reformulação constante das nossas questões, principalmente as consideradas fundamentais. Não é questão de retornar sempre às mesmas perguntas para procurar respondê-las de outra forma; nunca se chegará a lugar nenhum somente repisando as mesmas antigas perguntas. É necessário sair delas, superar antigas perguntas; quando nossas questões ou nossos problemas são mal formulados ou já se tornam senis, não há forma possível de extrair deles uma solução potente.

Falar em resistir pode ser traduzido como agir com o intuito de superar, suplantar ou, no mínimo, sabotar as formas de sociabilidade que maculam a cidade contemporânea. De forma geral, porém, podemos dizer que o problema da resistência não pode ser considerado como um problema simplesmente contra-capitalista. Da mesma forma, também não é recomendado que o problema da resistência seja considerado um problema propriamente comunista ou socialista. Podemos dizer que, caso tivéssemos que optar por algum tipo de doutrinismo ou idealismo – ou algum tipo de doutrinista ou idealista –, optaríamos pela pirataria como não-doutrina e pelo pirata como seu livre navegador.[vi]

Resistir como um problema anárquico, heterotópico[vii], sempre reaberto.

É necessário afirmar que foi de posse destes tipos de doutrinismos e idealismos cultivados por muitos dos espectros da efígie-esquerda que não encontramos saídas para os obstáculos a uma livre expressão do trabalho da resistência. Por este motivo, mais do que não se identificar nestes lugares, é também contra eles que uma resistência inventa outras formas de vida; e rasga sua lista de questões.

Manifesto solícito: anarquize!

Acumulamos anos de aprendizado com o capitalismo burguês e com o comunismo burocrático; já erguemos grandes edifícios pela sua contra-indicação. Os novos ventos de uma terceira via transversal anunciam a pior das fusões: momento onde finalmente as duas faces da grande política do último século viram uma só estátua na constância do exercício do poder institucional. A militância virou ato de redundância; a crítica está abarrotada. O último fracasso da esquerda brasileira terá sido a eleição do palhaço Peri, aquele que articulava nossas esperanças de transe e riso desde 82. Pergunta-se: quê fazer da resistência? Contra aquela espécie de maçonaria capitalista, mas também contra a tristeza militante, é preciso reinventar no cotidiano a prática dissidente, uma nova postura; novas formas de re-existir. Re-conhecer a potência libertária de nossos atos para então re-fundar, senão nossa mística de esquerda, pelo menos outras formas de resistência sinistra, de potência canhota. Re-articular nosso corpo para re-fazer o cotidiano através dos bandos e coletivos.

Além da vertigem capitalista e da tristeza militante, seus horizontes sem foco, é necessária nossa anarquia como problema prático, política do cotidiano, tracejado à liberdade e ao prazer de viver uma existência em sua originalidade, articulando liberdade pessoal e alteridade numa atitude de desafio e risco presente. Acompanhando o que manifestam alguns de nossos atuais cúmplices, ali onde revelam a possibilidade de evocarmos a vida em cada um dos seus instantes, podemos furtá-los. Façamos. Mesmo que sempre seja ocasião para rever os clássicos, será preciso acompanhar os cúmplices do presente, articular os corpos vivos para uma anarquia presente que reunifique sensibilidade, pensamento e práticas libertárias entre os reinados.

Resistir: re-existir.

Forjar do cotidiano um laboratório de liberdades, de atitudes riscadas em giz sobre as aparências lisas do real, buscar os rompantes de liberdade existindo no tempo através dos novos enlaces entre sensibilidade e tradução, forjando na experiência a produção da anárquica novidade. A densidade de uma máquina de guerra[viii] não estará somente nas linhas de fuga percorridas no caos, no corpo pleno da Terra, mas também em sua re-estabilização num conjunto de linhas flexíveis tecidas entre os reinados, conhecimento e desconhecimento, des-conhecer, articular, re-articular: recombinar. A resistência transpassa a permanência tanto quanto reorganiza linhas flexíveis que negociam a realidade positivamente, genealogia de quedas tanto quanto apologia da produção e da vontade. Dupla face do caos, abismos e afirmações, levante e lucidez.

O trabalho transversal da resistência aos eixos verticais que fundam a caretice dos axiomas e rotinas finais vai tanto tentar destroçá-los quanto integrar as abruptas emoções numa nova e cotidiana consciência, num novo e cotidiano modo de vida, processo que percorre eixos também envergados, anômalos, ganhando velocidade entre as duas faces do caos. Nossos objetivos, como sempre, são o saque, o roubo e a sabotagem de idéias; a criação e a subversão de conceitos; a negociação de ferramentas; as viagens cósmicas e astrais, e seus relatos; as celebrações culinárias e as bebedeiras; o cultivo de rosas que explodem no inimigo e de carnes que possam jogá-las. O método está no limiar de ser reinventado.

Contra aquela espécie de maçonaria capitalista, mas também contra a tristeza militante, é preciso reinventar no cotidiano a prática dissidente, uma nova postura, toda uma nova forma de preguiça e indolência, de vadiagem e vagabundagem criativas.[ix]

Se o capital hoje corre com mais pressa, é porque a multiplicidade da resistência o força a fazê-lo; e justamente no ponto onde o capital adquire sua maior possibilidade de deslizamento e rarefação, atingindo sua maior possibilidade de preenchimento, é justamente aí que já começa a desabar da maneira mais estúpida. O capitalismo contemporâneo apresenta-se burro de ganância; seu esfumaçar-se o faz constantemente perder os controles que pretende em si mesmo.

Os militantes estão ainda perdidos entre os vinis empoeirados que cantam operetas cubanas ou soviéticas; e nem parecem perceber que Che Guevara já vai virando personagem de novela das nove; enquanto isso, seus quadros de governo agenciam conexões misteriosas, querendo ou ocupando com ternos bem passados as pompas e teatros da cúpula estatal, retirando dali o que pensam ser devido depois de seus tantos anos de sacrifício moral e cívico.

É na problemática da produção de diferença que poderemos situar tanto o desatino da cidade contemporânea quanto as possíveis estratégias criativas de insurreição no rumo de uma nova cidade; é nas operações em torno desta produção de diferença que poderemos encontrar tanto os mais ardilosos dispositivos de funcionamento do capitalismo contemporâneo quanto as mais eficientes estratégias de resistência para os dias de hoje.

Convém sempre relembrar a lucidez de pensadores como La Boétie, para quem o problema principal não é aquele antigo, sobre quem nos oprime ou como o faz. Para ele, nosso problema é nossa servidão voluntária. Este pensamento aponta radicalmente para nossa liberdade, aponta também um dado importante acerca da militância que temos na cidade: se nós mesmos produzimos os sistemas nos quais vivemos, e precisamos sempre falar em primeira pessoa quando o assunto diz respeito à nossa vida coletiva, quem senão nós mesmos inventará nossos novos pactos de liberdade?

São muitos os protomutantes[x] perdidos entre esta massa de comunistas; muitos mais estão perdidos entre as hordas capitalistas. São nascidos e criados, psiquiatrizados, psicanalisados, militarizados, bacharelados, empregados, aposentados e assassinados; são protomutantes julgados em posse para o bem do grande esforço de mover a roda da fortuna ou uma revolução cronometrada, protomutantes cujo principal sintoma costuma ser o alto grau de conivência ou o desespero do descaminho. Estão perdidos por todos os lugares, e são corpos sensíveis e agitadores habitando uma carcaça de gente cansada, o fôlego dos trabalhadores, o sono de estudantes, o estômago dos militantes e o tempo hostil dos desocupados e desempregados; ricos, pobres, remediados ou favelados. Ou ainda protomutantes com seus corpos em revolta, corpos batedores ou errantes, pedintes e salafrários. Talvez corpos narcotizados de informação, drogas sintéticas e apliques. Alguns mesmo burgueses e cruéis.

A grande onda dissidente abaterá esta confusa cidade contemporânea? Terá sido a onda dissidente anestesiada nas alegrias do marketing e sob o peso vermelho dos martelos e foices oficiais? Burlar a cidade contemporânea no rumo de uma nova sociabilidade só pode significar a deserção de seus circuitos autoritários, para além dos quais haverá a possibilidade de produzirmos experiências originais e singulares no cotidiano, experiências onde o desejo encontre canais para ser efetuado e expresso. Se ainda há algum sentido na palavra utopia, e não há porque descartá-la, este sentido deve remeter a uma atitude presente abertamente ligada à intensificação da experiência aqui e agora. Não haverá uma utopia que não tenha tradução na dinâmica genuína do nosso cotidiano.

Há um protomutante em potencial em cada corpo sedado ou transtornado; há um grande basta entalado em muitas gargantas e muita energia a usinar. É entre todos estes protomutantes que existem novas sensibilidades estéticas; e é no resgate dos seus corpos sensíveis que poderemos entender uma utopia contemporânea, assim como as sutilezas e as gentilezas das suas práticas e linguagens.

Falta-nos acreditar nas possibilidades

Acreditar nas transfigurações e nos apaixonamentos.

Então chutaremos o balde desta estúpida hipocondria.



[i] Ver: Peter Pál Pelbart. “Biopolítica” in Vida Capital – Ensaios de biopolítica. São Paulo: Iluminuras, 2003. p.55-59.

[ii] Para uma apresentação e uma discussão sobre o encontro entre as ciências humanas e o corpo, ver especialmente: David Le Breton. A Sociologia do Corpo. Petrópolis: Vozes, 2007.

[iii] Ver: Suely Rolnik. Cartografia Sentimental – Transformações contemporâneas do desejo. op. cit.

[iv] Ver: Paulo Vaz. “O futuro e as fronteiras do humano” in Revista Item #6. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2003. p. 82-101.

[v] Jorge Goia discutiu esta condição do corpo a partir da obra de Tim Ingold. Ver: Jorge Goia. Laboratórios de uma terapia anarquista – Experiências estrangeiras com Soma e capoeira angola. Tese de doutorado em Psicologia Social. Rio de Janeiro: UERJ, 2006 & Tim Ingold. The perception of the environment – essays in livelihood, dwelling and skill. Londres: Routledge, 2000.

[vi] Ver: Hakim Bey. TAZ: Zona autônoma temporária. op. cit..

[vii] Ver: Edson Passetti. “Heterotopias anarquistas” in Revista Verve #2. São Paulo: Núcleo de Sociabilidade Libertária da PUC/SP. Out/2002. p. 141-173.

[viii] Ver: Gilles Deleuze & Félix Guattari. “1227 – Tratado de nomadologia” in Mil Platôs – Capitalismo e Esquizofrenia Vol.5. São Paulo: Ed. 34, 1997.

[ix] Guy Debord e Hakim Bey apresentam as novas formas de militância mesclando a ação política e a insubmissão com o terrorismo poético e a vagabundagem criativa; contribuem para pensar a revolta e a dissidência como virtudes hedonistas. Ver: Guy Debord. Panegírico. São Paulo, Conrad, 2002. & Hakim Bey “Caos: os panfletos do anarquismo ontológico” in CAOS: Terrorismo poético e outros crimes exemplares. São Paulo, Conrad, 2003.

[x] O termo protomutante foi cunhado por Thomas Hanna e posteriormente atualizado por Roberto Freire na caracterização do personagem Coiote, no romance homônimo. Ver: Thomas Hanna. Corpos em revolta (uma abertura para o pensamento somático). Rio de Janeiro: Edições Mundo Musical, 1972. & Roberto Freire. Coiote. São Paulo: Sol e Chuva, 1997.

Protomutantes

Protomutantes. Não há método. Melhor: que haja um mínimo de método logo ao amanhecer, concessão, isso porque também há contas a acertar. De resto, vive-se e o dia-a-dia é um suceder de experiências sempre renovadas: alguns segundos e algo já se passou neste inevitável ineditismo, eterno instante. O que tens é o agora, ou uma fração dele, aquela que te atravessa imediatamente. No cotidiano, a cada novo passo, no entre das forças, ali onde reina o disparate, terás tanto a mutação das efígies do Grande Poder quanto novas e inusitadas circunstâncias vitais. Toda sorte de constrangimentos e de acasos estarão conectados com teu suceder precário e com o surgimento dos limiares possíveis pra tua vontade. Tens um domínio parcial sobre o que te sucede, e um domínio ainda mais parcial sobre a consciência do que te suscede. As forças atuam aberta e francamente, mas em áreas onde nem sempre as podemos ver, onde nem sempre as podemos tocar conscientemente. Elas também fustigam às escuras. A intimidade com as forças é principalmente uma intimidade com as intuições, com as imaginações, com os saltos mortais de um corpo. Se não as podemos ver completamente, também não as podemos contabilizar fielmente. É sempre um lance de risco. As forças misturam e estendem tua própria carne entre tudo o que está ao teu redor, sendo o espaço que te envolve uma relação cambiante de proximidades e distâncias, e o tempo uma relação cambiante de passagens. Só o que podes fazer é tomar o que te resta de alguma consciência, ponto de inflexão crítica onde cruzam-se o conjunto das referências que te levaram a uma certa história pessoal, aquelas que conheces, aquelas que nem suspeitas, tentar tomar o que te resta de alguma consciência para exercer o que te resta de alguma vontade. Sempre há teu quinhão de consciência. Sempre há teu quinhão de vontade. E isso já é muito! Sempre existem possibilidades, inclusive a grata possibilidade de desejar o que parece impossível. E buscá-lo. É certo que é preciso fôlego. É certo que é preciso um coração que busque a graça. É certo que é preciso desejar o gozo. Além de tudo aquilo quanto já decidimos como veementemente necessário, é preciso o encadear dos instantes sublimes, um buscar pelas experiências culminantes. Tomando o que te resta de ti mesmo, protomutante, explora o teu primeiro abismo, labirinto de ti mesmo; sobre os limiares do que podes compreender de ti mesmo, tão personalizado quanto conseguires ser, então joga-te sobre o segundo abismo, sobre o labirinto do fora. Quando estes dois labirintos se encontram, dois abismos abraçam-se, enlaçam-se ou até entrechocam-se: e é destas fagulhas que nasce uma ponte, é elas que iluminam alguns passos a mais no encontro dos labirintos. A fagulha faz nascer alguém, mas não circunscrevendo um domínio delimitado: nasce alguém quando rompem-se as bordas do dentro e do fora, quando rompem-se as bordas que se supõem entre ti e o que te cerca, quando rompem-se até mesmo as divisões que julgaram existir em ti. Surge um soma: complexo, integrado, conectivo e apaixonante. O protomutante é o apaixonado por estas fagulhas que fazem nascer mundos, arquiteto de mil pontes, cartógrafo deste labirinto que é ele mesmo, apologista das recombinações, estrategista das resistências. O protomutante já deseja o momento das explosões, já festeja cada canto de solidão-sem-mágoa libertado mesmo que provisoriamente, já goza da vida para fazê-la mais suficiente, já busca a emergência da anárquica novidade como forma de fazer a vida digna de ser vivida. É o vizinho mais temido da esfinge. Seu cotidiano é um laboratório onde processam-se estes encontros entre abismos: alguns encontros acontecem sobre a superfície viva do corpo, marcam-no com sua força eficaz ou sacodem-no com sua força doidivana, estendem-no mais e mais ou em outras direções; outros encontros acontecem à revelia, em algum lugar remoto que pode ser mesmo logo abaixo de nosso nariz, mas destes encontros à revelia percebemos somente os efeitos, ou nem isso. O que vês ao teu redor? Vives dentro de que mundo? Gostas de qual tipo de coisas? Guardas essas coisas com qual capricho? Há quem colecione moedas; há quem colecione dinheiro; há até quem colecione caprichos. Mas é certo que existem aqueles que colecionam marteladas, aqueles que colecionam lembranças de transfiguração, transes, risos. O que guardas em tua cartola? O que levas nos porões de teus navios? Que rotas percorres e por quê? Como te chamam? Como te reconhecem? Onde, na carne, tua vida te dói mais? Tua carne também te apresenta o belo e indescritível do amor? Aonde? Teu corpo, quase uma miragem, nítida ao ponto de fazer salivar, opaca ao ponto de angustiar: experimente-no por fora dos cardápios oficiais, dê o passo além na tua deriva na cidade, dê algumas tesouradas no teu ego e descubrirás a multidão que vive passando por ti, atravessando teu deserto e tua miragem. O que te move à tua política, o amor ou a miragem? Diante da perplexidade geral, o que te resta é só um corpo. E já é muito. O que vais fazer dele? Aonde queres que ele chegue? O que queres que ele faça? Responda à charada da esfinge que mora em ti mesmo e poderás adentrar no disparate que é a tua própria vida, talvez compreendê-la um pouco mais e delinear então caminhos que te agradem ou não. Até tudo mudar novamente. Viabilize cotidianamente teus caminhos. Mesmo que os passos sejam curtos e dados um a um, o protomutante é também um caminhante, muitas vezes um maratonista, outras somente um extravagante. Nos limites do possível, se vale, te rogo que aterrorize, ataque e fuja, e que também aproveite da vida sem restrições: o teu instante eterno preside a tragicidade do teu cotidiano, instante eterno de encontros que podes desejar buscar ou não.

Aconteça, protomutante. Aprenda a viver descalço e com a fagulha na mão.

E nunca – nunca! seja o imbecil que olha o dedo quando o dedo aponta a lua.

21.5.08

cartograma#104 - gentilezas


da série memórias com m maiúsculo:
gentilezas antes de cair ladeira baixo.
Céu na Terra, Santa Teresa/RJ, 2008.

10.12.07

cartograma#103 - baudelaire

"Vocês sabem que eu não me divirto nada lá em casa; nunca me levam ao espetáculo; meu tutor é avarento demais; Deus não liga para mim e para o meu tédio, e não tenho uma empregada bonita para me mimar. Muitas vezes me pareceu que meu prazer seria andar sempre em frente, sem saber para onde, sem que ninguém se preocupasse, e ver sempre novas terras. Nunca estou bem em lugar nenhum, e sempre acho que estaria melhor onde não estou. Pois bem! Eu vi, na última feira da vila vizinha, três homens que vivem como eu gostaria de viver. Quanto a vocês, não prestaram atenção neles. Eram altos, quase negros e muito altivos, mesmo que em andrajos, com jeito de não precisarem de ninguém. Seus grandes olhos escuros tornaram-se absolutamente brilhantes enquanto tocavam música; uma música tão surpreendente que dá vontade ora de dançar, ora de chorar, ou as duas coisas ao mesmo tempo, e enlouqueceríamos se os escutássemos por muito tempo. Um deles, arrastando o arco do violino, parecia contar uma aflição; e o outro, fazendo saltitar seu martelinho nas cordas de um pequeno piano pendurado em seu pescoço com uma correia, parecia zombar do lamento do seu companheiro, enquanto o terceiro batia de quando em vez seus címbalos com uma violência extraordinária. Estavam tão satisfeitos consigo mesmos que continuaram tocando sua música de selvagens mesmo depois que a multidão se dispersou. Enfim, juntaram seus tostões, tomaram sua bagagem nas costas e foram embora. Eu, querendo saber onde moravam, os segui de longe, até a beira da floresta, onde só então entendi que não moravam em lugar nenhum."

Trecho de "As Vocações", em Pequenos Poemas em Prosa, Ed. Hedra, p.179.