22.6.09

Grande Poder

Grande Poder. Até aqui, nas sessões anteriores, fiz repetidas referências ao que chamei muito vagamente de Grande Poder. Disse que é em contraposição ao jugo do Grande Poder que os terroristas impõem a presença da rua, que é para ficar à margem do Grande Poder que atuam os clandestinos, que é para não serem tomados pelos sacrifícios inerentes à ascese proposta pelo Grande Poder que os hedonistas celebram os instantes sublimes; e também que é para rasurá-lo de novos manifestos que operamos a anti-ciência e inventamos pensamentos minoritários. Se ainda não tratei de explicar o que tento amarrar sob este termo, porém, é porque acredito que esta discussão demanda uma sessão especial, ou até mais do que uma simples sessão. Entro em passos cuidadosos: para falar do Grande Poder é preciso consultar a esfinge da política, é preciso arriscar decifrá-la, mas nisso também arriscar ser devorado.

Desço em passos lentos aos porões do prédio, onde um funcionário graduado abre uma das grandes portas que dá para o calabouço com uma chave que acha prontamente em seu chaveiro abarrotado; por trás da escuridão imensa que a porta escondia, no breu do calabouço, sinto a presença da esfinge e sussuro – Quero entrar. A esfinge prontamente devolve seu canto de sereia – Mas de que mundo vens, visitante? E como ele chegou a ser o que ele é?

Alguns segundos.

Em primeiro lugar, esfinge, nem a linha, nem o traço, nem a seta são boas metáforas pra nossa história. Tampouco para a crítica. Aliás, podem ser boas metáforas para boa parte das histórias e das críticas, mas nunca para o que se passa por detrás disso tudo, às nossas costas, e aí estará o sucesso de minha tentativa. O que se passou é o que perguntas.

O que se passa?

É uma questão de devires.

A história como linha reta surge produzida pelos historiadores linha reta, aqueles que interpretam o que se passou às suas costas como um tracejado em linha reta; e a crítica como linha reta surge produzida pelos críticos que interpretam o que se passou às suas costas como um tracejado em linha reta. Mas no calabouço disso tudo, imensidão sem luz sob as estruturas que permitem a interpretação – Esfinge! Sei que tens como ambiente o disparate[i], uma multiplicidade de forças em jogo constante. Tu tens o impossível ao teu redor e pedes a nossa resposta improvável como forma de guardares sempre sozinha esta multiplicidade que pertenceria a todos não fosse a tua ganância, para manter esta intimidade com as forças sozinha. Só tu – Esfinge! Guardas a senha que permite esta intimidade e queres esconder nesta escuridão a interpretação que apresenta não a linha como metáfora da vida, mas o disparate.

Não queres que sejamos os historiadores e os críticos do impossível.

Mas eu também quero do disparate.

Esfinge! Eu desejo o impossível, as linhas transversais.

Mesmo que a nossa história seja produzida como um período específico dentro da contagem do tempo cronológico, ou seja, que nossa História seja tomada como um conjunto de épocas e/ou períodos e/ou esquemas que se sucedem no tempo cronológico, e que em sua sucessão a nossa crítica pretenda achar qualquer sentido lógico ou estrutural, sinto que o disparate pré-existe a todo mapa histórico ou crítico e quero é desta política que pré-existe, desta política que produz as condições primeiras para nossa deriva sem fim. Quero entrar neste calabouço e fazer uma história do impossível, produzir uma crítica improvável, provar de uma tal política do disparate, desenvolver uma outra intimidade com o tempo, outra relação com o espaço.

O disparate é uma multiplicidade de jogos de forças, jogos de jogos de força, de forças sobre forças; uma multiplicidade de platôs[ii] intercomunicantes, de temporalidades cronogenéticas[iii], de arranjos que vibram sobre si mesmos e entre si, ou seja, múltiplas durações[iv] que reagem entre si causando toda sorte de choques, fissuras, mudanças de posição, trocas de elementos dispersos etc. Multiplicidade essa que, em seu embate inevitável, também não consegue conter a emergência de diferentes acontecimentos[v], a fulguração das resistências, a produção das diferenças.

Os critérios de vigência e permanência destas durações múltiplas, bem como os graduais de diferença, tudo isso diz respeito às constâncias e às inconstâncias que este jogo de múltiplas durações sustenta entre si, e quando achamos que percebemos algo, eis que algo já mudou e já não podemos mais reconhecer aquilo que há pouco reconhecíamos. É preciso desejar fazer uma história e uma crítica que não estejam ligadas somente à passagem linear do tempo cronológico e à sucessão de possíveis estruturas fundamentais; é preciso contar histórias – contar histórias, esfinge! Ensaiar críticas ligadas a este paradoxo fundamental: que as forças que arranjam são as mesmas que desarranjam, que tudo organiza para desorganizar, desorganiza para organizar. É preciso dizer que o disparate é exterior aos calendários oficiais, é o grande e caótico fora do tempo cronológico e das lógicas estruturais.

Perguntas de que mundo venho e como ele chegou a ser o que é, mas só poderei responder-te quando também me deixares passar para dentro deste calabouço, para as paragens onde vibra este tempo nada convencional, onde é vigente um espaço assimétrico, e nisso tua pergunta não pode ser respondida sem que antes me deixes entrar.

O paradoxo da esfinge.

O disparate mantém uma relação estreita com o tempo e o espaço que temos aqui em cima, o tempo cronológico e o espaço simétrico, isso porque estes jogos de força que corroem as estruturas do prédio também engendram a possibilidade de um mapa, arquiteturas, porque também engendram uma estratégia histórica que nos leva a produzir alicerces possíveis, uma empreitada historiográfica, e também toda uma estratégia crítica e sua fortuna. É no registro do tempo cronológico e no campo do espaço simétrico que produziremos os nossos pontos de localização e ancoragem, os mapas possíveis de determinados arranjos de força e seus efeitos, de uma dada formação entrevista, os pontos nevrálgicos de qualquer análise crítica.

Criar uma intimidade com o disparate não é somente perceber inusitadamente sejam as diferenças e as novidades, sejam as vigências e suas permanências, mas também sobreviver para cartografá-las para dentro do tempo cronológico e do espaço simétrico, nos limites do impossível.

Mas tudo derivará novamente quando uma intuição, uma iluminação, um lampejo, quando fazem suspeitar um arranjo, ou um ponto de inflexão, e então perguntaremos novamente o que se passou às nossas costas, o que passa, que mundo é esse e como ele chegou a ser o que é. Mas sabendo do inaudito, já nos sabemos atrasados e urgentes. O relojoeiro, cercado de relógios, não só deve ter intimidade com o tempo, mas também deve perguntar-se da hora; o agrimensor deve perguntar-se da terra, mas também de sua métrica.

O tempo cronogenético torna possível a coexistência de diferentes arranjos num mesmo recorte do calendário, num mesmo instante, e por isso também podemos dizer que os diferentes arranjos não são períodos históricos, mas camadas de tempo sobrepostas, entrepostas, até contrapostas. Respeitando uma duração própria, mais implicada com a vigência dos problemas que coloca do que com a contagem dos dias que se sucedem, cada um destes arranjos vibra de forma simultânea aos demais, e eles deslizam uns sobre os outros enquanto construímos o canal do tempo cronológico para tentar entendê-los em seu constante fervilhar; não só deslizam como reagem, rebatem-se num jogo atroz. Enquanto arrancamos as folhinhas do calendário, as durações múltiplas lhe roem e extrapolam as margens, criam diques circunvizinhos e agenciam o romano a calendários ancestrais e futuros, a toda sorte de outras temporalidades que nenhuma contagem contínua poderá perceber, que nenhuma cartografia conseguirá abordar senão parcialmente: são mil ou mais, os platôs.

Nunca atingimos o tempo cronogenético com nossas cartografias – Esfinge! Somente reinauguramos sua faceta cartográfica, duplo cronológico. Atingimos o tempo cronogenético com nosso corpo, ou melhor, será o tempo que nos atinge já que o tempo aquilo que pré-existe e extrapola o próprio corpo. As noções e os conceitos que produzimos para dar conta de entender estas passagens e estas marcas que o disparate inaugura lhes são relativamente exteriores. Mesmo que todo mapa ainda esteja ligado à Terra, bem ou mal, fielmente ou não, todo mapa é relativamente exterior ao terreno que cartografa. As noções e os conceitos, as interpretações, isso são conjuntos que surgem como modelagens, como estabilizações, guias de reparos que conseguimos produzir dentro desta multiplidade dinâmica que estamos sempre em vias de compreender.

Cada arranjo das forças fornece um determinado conjunto de urgências, e precisamos das noções e dos conceitos para dar conta destas urgências, para não só engendrar pensamento, mas engendrar toda sorte de redes extremamente complexas que envolvem não somente as teorias que interpretam, mas a materialidade cotidiana de alguém que as executa, aonde e como. Uma teoria é uma prática. O tempo estende-se no espaço. Um arranjo de forças coloca determinadas urgências estratégicas em vigor, e o que resulta daí em mapa é algo efetivamente material e não somente metafísico: a modulação das forças em dispositivos[vi], a modulação das existências em equipamentos coletivos, seus engendramentos, a reorganização própria das generalidades e das particularidades, articulações entre humanos, coisas e a natureza, limiares de visibilidade, regimes de enunciação... uma fagulha, um estopim.

Durante alguns anos, isso desde o final da faculdade até o início do curso de doutoramento, quando procurava alternativas que me permitissem colocar o problema que me apresentas (– Esfinge!), acabei desenvolvendo uma intercessão bastante fértil com cinco cúmplices em especial. Parecia-me que, articulando o que eles propunham, eu conseguia chegar a um cenário suficientemente fiel de como a contemporaneidade se apresentava a mim e de como ela tinha chegado a ser o que é. Este cenário me satisfazia plena e fartamente. Numa intercessão com o filósofo francês Michel Foucault, acompanhei e escrevi sobre as transições que levaram dos regimes de soberania aos regimes de disciplina e controle[vii], reflexões essas que eram suplementadas por uma intercessão com o filósofo francês Gilles Deleuze e também com seu cúmplice, o psicanalista francês Félix Guattari – principalmente no ponto onde aqueles regimes de poder disciplinar e de controle também deixavam perceber modos de subjetivação correlatos, onde os regimes de poder são regimes que concorrem para a produção de si e do mundo ao nosso redor[viii]. Tendo já uma intercessão fértil com estes três cúmplices, ainda encontrei de forma também fértil as cartografias do cientista político italiano Toni Negri e do lingüista estadunidense Michael Hardt, agora por conta da composição de uma cenário mais vasto de transições nos modos de governança e de produção capitalista quando do surgimento daquilo que eles chamam de Império.[ix]

Continuo achando que todo este conjunto de reflexões, e o tanto de entrecruzamentos que elas permitem entre si, qualificando uma a outra sem ter um sentido fusional e monolítico, este conjunto é bastante bom: ele ainda funciona, mesmo que precariamente. Durante os anos de doutorado, ainda procurei outros cúmplices com os quais pudesse estabelecer novos pontos de intercessão, mas confesso que nenhum dos novos causou-me o impacto que os já citados haviam causado, ou pelo menos um impacto suficiente ao ponto de demandar em mim a criação de um novo cenário para hoje. Se é desonesto reproduzir aqui todo um capítulo já defendido e é honesto não desejar escrever de novo sobre o que já se escreveu, prefiro somente indicá-lo e passar adiante.[x]

De resto, quero tratar de outra coisa aqui – Esfinge!

Da queda do muro de Berlim, passando pela queda das grandes torres e suas conseqüências bélicas, chegando à tomada do bunker de Saddam e à atual crise do sistema financeiro mundial, cerca de 20 anos de altíssima velocidade onde a vida coletiva sofreu modificações profundas das mais diversas ordens, nos mais diferentes aspectos e registros. Anuncia-se um novo arranjo. Se acompanharmos os analistas, veremos que não é somente por um motivo, mas por vários e de diversas maneiras que este novo arranjo se apresenta: podemos falar da inauguração de um novo sistema de governança global, ancorado num novo pacto mundial entre Estados, Empresas, Ciência, Mídia e organizações da Sociedade Civil, praticamente todos com suas funções locais modificadas e também funcionando de forma cada vez mais interligada em redes multilaterais a serviço do gerenciamento da instabilidade geral. Podemos falar da inauguração de um novo sistema de produção globalizado, ancorado nos novos regimes nefastos de trabalho, tecnologia e comércio. Podemos falar da crise de legitimidade das ciências não aplicadas, e acompanhar o diálogo cada vez mais próximo e muitas vezes promíscuo entre a comunidade científica, o Estado e a Empresa. Podemos discutir o poder dos meios de comunicação de massa, os procedimentos de formação de opinião, a estética do espetáculo e a publicidade como nova metafísica. Podemos falar das novas organizações do chamado terceiro setor e discutir a sua função dentro do novo sistema não protetor. Também podemos discutir assuntos de atualidade incandescente que revelam uma certa lista de sintomas da atualidade: a novidade das guerras preventivas presidindo a violência entre países e a emergência do direito de exceção; o que se diz e como opera o casamento entre religiosidade e terrorismo, e também os possíveis desdobramentos de uma jihad islâmica desencadeada contra os ímpios do novo e do velho mundo entorpecidos; os problemas enfrentados com os vizinhos latinos e a possibilidade de uma intifada indígena que é menos religiosa, mas com traços bastante nacionalistas e racistas; as grandes modificações ecológicas e os reiterados furores naturais, o quanto representam o imprevisível ciclo da Terra ou o seu reclame mais mortal; a ciência inaugurando a era da hibridização radical entre corpo, natureza e cultura, a medicalização da vida e o surgimento do ciborgue[xi] e do homem pós-orgânico[xii]. Podemos discutir a crise que, em 2008, precipitou-se sobre o mundo inteiro tendo Nova Iorque como epicentro, perguntar até onde ela irá e de quanto será o dispêndio de cifras para conter a voracidade do buraco capitalista, que somado ao roubo generalizado perpretado pelos controladores do sistema financeiro, já chega na cifra de bilhões em moeda forte.

Se optarmos por abrir mão das análises que têm seu foco na geopolítica globalizada ou nos sintomas mundiais e partirmos para análises que levem em consideração as modificações que se processam no modo de vida em seu sentido mais cotidiano – Esfinge! Poderemos também problematizar os surtos de depressão e pânico, a perplexidade e a vertigem, o esfacelamento das relações de vizinhança em paranóia e ressentimento, a emergência da medicalização psiquiátrica como forma de suprimir as angústias existenciais, o novo medo de amar traduzido em solidão ou em exploração superficial do corpo cosmético, o turbinado desejo por consumo, a entrada de todo um novo vocabulário comum intermediando a comunicação entre as pessoas e muito (muito, muito) mais.

Tudo isso é o mundo de onde venho – Esfinge!

E poderia tentar te explicar como tudo chegou ao que é.

Mas não. Cabe sair das cartografias já feitas.

Cabe voltar ao disparate.

Se ainda retomo os temas preocupantes nas cartografias atuais, não é porque quero reabrir a pauta dos discursos queixosos nem do esquerdismo ressentido, mas porque também é necessário preencher de memória o buraco negro da atualidade. Ainda hoje acho que a contemporaneidade fornece melhores condições para a resistência do que as décadas e séculos anteriores, ou pelo menos fornece condições diferentemente colocadas que permitem que forjemos novas e insuspeitas armas[xiii]. Pra mim, o desencanto não faz sentido, e se parte da crítica está abarrotada é porque está tendo que haver-se com suas próprias idiossincrasias. Mesmo que tenhamos que constantemente recolocar a enormidade de temas que indicam a crise generalizada, é preciso aproveitar estas condições diferentemente colocadas para poder ter uma vida melhor, uma vida digna. Ou desejar aproveitá-las. Tanto quanto é preciso que teorizemos sobre isso, é preciso que tenhamos a capacidade de perceber aonde estas diferentes condições de vida são possíveis, aonde algo novo acontece, e estar lá. Principalmente estar lá.

Mas alguns minutos se passaram... e algo mudou.

Deixe-me entrar antes de responder tua charada – Esfinge!

Eis a única resposta que tua charada pode esperar.



[i] “O que se encontra no começo histórico das coisas não é a identidade ainda preservada da origem – é a discórdia entre as coisas, é o disparate”. Ver: Michel Foucault. ‘Nietzsche, a genealogia e a história’ in Microfisica do Poder. Rio de Janeiro: Graal, 1999. p.18.

[ii] “Gregory Bateson serve-se da palavra ‘platô’ para designar algo muito especial: uma região contínua de intensidades, vibrando sobre ela mesma, e que se desenvolve evitando toda orientação sobre um ponto culminante ou em direção a uma finalidade exterior”. Ver: Gilles Deleuze & Félix Guattari. ‘Introdução: rizoma’. op. cit. p.33.

[iii] Ver: Suely Rolnik. “Pensamento, corpo e devir: uma perspectiva ético/estético/política no trabalho acadêmico”. op. cit.

[iv] “A história não é, portanto, uma duração: é uma multiplicidade de tempos que se emaranham e se envolvem uns nos outros. É preciso, portanto, substituir a velha noção de tempo pela noção de duração múltipla. [...] Faz muito tempo que a história se desembaraçou do tempo, ou seja, que os historiadores não reconhecem mais essa grande duraçção única que englobava, em um só movimento, todos os fenômenos humanos: na raiz do tempo da história não há uma coisa como uma evolução biológica que englobaria todos os fenômenos e todos os acontecimentos; há, na verdade, durações múltiplas, e cada um delas é portadora de um certo tipo de acontecimentos. É preciso multiplicar os tipos de acontecimentos como se multiplica os tipos de duração.” Ver: Michel Foucault. “Retornar à história” in Ditos e Escritos vol.2 – Arqueologia das ciências e história dos sistemas de pensamento. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2005. p.292-294.

[v] “Em todo acontecimento existe realmente o momento presente da efetuação, aquele em que o acontecimento se encarna em um estado de coisas, um indivíduo, uma pessoa, aquele que designamos dizendo: eis aí, o momento chegou; e o futuro e o passado do acontecimento não se julgam senão em função deste presente definitivo, do ponto de vista daquele que o encarna. Mas há, do outro lado, o futuro e o passado do acontecimento tomado em si mesmo, que esquiva todo presente, porque ele é livre das limitações de um estado de coisas, sendo impessoal e pré-individual, neutro, nem geral, nem particular, eventum tantum...; ou melhor, que não há outro presente além daquele do instante móvel ue o representa, sempre desdobrado em passado-futuro, formando o que é preciso chamar de contra-efetuação”. Ver: Gilles Deleuze. “Viségima primeira série: do acontecimento” in Lógica do Sentido. São Paulo: Perspectiva, 2003. p.154.

[vi] “Através deste termo tento demarcar, em primeiro lugar, um conjunto decididamente heterogêneo que engloba discursos, instituições, organizações arquitetônicas, decisões regulamentares, leis, medidas administrativas, enunciados científicos, proposições filosóficas, morais filantrópicas. Em suma, o dito e o não dito são os elementos do dispositivo. O dispositivo é a rede que se pode estabelecer entre estes elementos. Em segundo lugar, gostaria de demarcar a natureza da relação que pode existir entre estes elementos heterogêneos. [...] Em suma, entre estes elementos discursivos ou não, existe um tipo de jogo, ou seja, mudanças de posição, modificações de funções, que também podem ser muito diferentes. Em terceiro lugar, entendo dispositivo como um tipo de formação que, em um determinado momento histórico, teve como função principal responder a uma urgência. O dispositivo tem, portanto, uma função estratégica dominante”. Ver: Michel Foucault. “Sobre a história da sexualidade” in Microfísica do Poder. op. cit. p.244.

[vii] Ver: Michel Foucault. Vigiar e Punir – Nascimento da prisão. Petrópolis: Vozes, 2002.

[viii] Ver: Gilles Deleuze. “As dobras ou o lado de dentro do pensamento (subjetivação)” in Foucault. São Paulo: Brasiliense, 2005. p.101-130.

[ix] “O Império está se materializando diante de nossos olhos. Nas últimas décadas, a começar pelo período em que regimes coloniais eram derrubados, e depois em ritmo mais veloz quando as barreiras soviéticas ao mercado do capitalismo mundial finalmente caíram, vimos testemunhando uma globalização irresistível e irreversível de trocas econômicas e culturais. Juntamente com o mercado global e com circuitos globais de produção, surgiu uma nova ordem global, uma nova lógica e estrutura de comando – em resumo, uma nova forma de supremacia. O Império é a substância política que, de fato, regula essas permutas globais, o poder supremo que governa o mundo”. Ver: Toni Negri & Michael Hardt. Império. Rio de Janeiro: Record, 2001. p.11.

[x] Ver: Stéfanis Caiaffo. “Sobre a capitalização das subjetividades” in Resistência e Militância – Cartografias contemporâneas. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-graduação em Psicologia Social. Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, março de 2004. p.29-41.

[xi] Ver: Donna Haraway & Hari Kunzru. Antropologia do Ciborgue – As vertigens do pós-humano. Belo Horizonte: Autêntica, 2000.

[xii] Ver: Paula Sibilia. O Homem Pós-orgânico – Corpo, subjetividade e tecnologias digitais. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2002.

[xiii] “Não cabe temer ou esperar, mas buscar novas armas”. Ver: Gilles Deleuze. “Post-scriptum sobre as sociedades de controle” in Conversações. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1992. p.220.

Ocaso brasileiro

Ocaso brasileiro. Saio do calabouço de volta ao porão. O funcionário ainda me espera sentado ao lado da porta, o molho de chaves na mão. Não sei quanto do tempo cronológico passou e vejo meu relógio parado em curto-circuito. Não reencontro a esfinge na volta, tampouco procuro. Tenho os pulmões inflados e o coração crepita. O funcionário fecha a porta atrás de mim enquanto, mesmo na penumbra do porão, a claridade já queima algo nos meus olhos que lacrimejam. É que volto ao mundo dos de cima, volto ao mundo das Luzes. O funcionário ri. Subo em passos lentos uma outra escadaria que dá em uma parte desconhecida do prédio, tanto mais precária quanto consigo me lembrar. O funcionário aponta a porta de saída e acena.

Agradeço.

Saio à rua e é Brasil, companheiras e companheiros.

Um calafrio percorre meu corpo imediatamente meu corpo: minha intuição imediatamente me leva a um problema que será como um ponto cego para mim mesmo, o final de um beco que atualmente não tem saída. Caminho até em casa pelas ruas da cidade, subo as escadas do meu prédio e venho direto ao escritório: olhando a estante, até mesmo na literatura, compreendo o paradoxo da esfinge.

É que são poucos os brasileiros.

Acredito, sim, que a complexidade das modificações que estamos vivendo sugere um novo arranjo; esta nova duração, mosaico extremamente complexo de formações históricas que compõem isso que o novo vocabulário pode chamar de globalização, a vigência deste arranjo é cada vez mais difícil de negar. Nos campos da governança, do trabalho, da produção e do comércio, da guerra, da comunicação e da informação, das relações interpessoais... enfim, em todos os aspectos da nossa vida coletiva está colocado um limiar de mundialização, visível ou não.

Voltar do disparate e estar no Brasil coloca o problema do esforço que temos em conseguir incorporar nas nossas histórias e nas nossas críticas esta realidade tão cotidianamente pungente que é viver aqui, o território periférico dos mil Brasis. Como articular as peculiaridades das formações globais com as peculiaridades das formações de abrangência mais local para reinventar efetivamente uma história de durações múltiplas onde a globalização incide, mas as formações de abrangência local não perderam completamente seu valor?

Cada arranjo abrange o solo fértil que o acolhe, do nosso corpo à nossa casa, do nosso bairro e ao nosso mundo todo. História é tempo e espaço. Alguns arranjos já mandaram pessoas à Lua e sondas a Marte. O pensamento histórico e crítico atual parece vidrado demais no novo vocabulário da globalização, e nisso parece eliminar paulatinamente as diferenças locais quando do debate sobre que mundo é esse e como ele chegou a ser o que é. Alguns parecem tomados da vaidade de querer explicar tudo. Entendem o processo da globalização como uma troca de paradigma, e então permanecem centrados nas sucessões lineares e nas lógicas estruturais, justo na medida em que a nova suplanta a anterior e torna-se vigente. Permanece a análise da história dentro do registro do tempo cronológico, dos registros tradicionais de passado, presente e futuro em sucessão, e não são poucos que propõem, nem poucas as origens que são propostas para esta nova era.

Mas a globalização não é um novo paradigma que suplanta os anteriores, não é o presente único colocado sobre um passado que já não é mais. As novas modalidades de existência recolocam de forma completamente diferente os planos global e local, mas não podemos supor que, com esta entrada, arranjos anteriores deixem de atuar, que as durações deixem de ser múltiplas. O que temos com o novo arranjo globalizado é a entrada de mais uma lâmina de tempo no contexto das demais e não uma lâmina que neutraliza as demais; ela vem para incidir também, mas não incide só. Trata-se não só de analisar a constituição de cada uma das novas formações históricas, trabalho que já exige um fôlego surpreendente, mas de analisar o embate gerado na coexistência nada pacífica destas durações múltiplas, e que também diz respeito ao solo fértil onde este embate todo acontece. É também preciso estar atento às vigências locais, quase mínimas.

Em que medida o pensamento eurocêntrico ou americanóide pode ser traduzido fiel e literalmente para os contextos de degradação vividos nos territórios periféricos? Não será esse um outro movimento de colonização que nos fará permanecer fazendo também uma história e uma crítica de segunda ordem? Se as teorias são somente caixas de ferramentas, é preciso dizer que também os parafusos trocam de bitola quando cruzamos os oceanos ou passeamos pela via sul dos hemisférios. Concedam que, pelo menos, a miséria incide sempre nos jogos de forças.

Além disso, só aqui o Fenômeno joga no Timão.

Colonizado tardiamente e tendo dizimada a sua população indígena originária, essa substituída pelo desamparo da carne negra traficada da África, a curta história do Brasil oficial condensa mestiçagens e passagens diversas, e é na coexistência presente de todas elas e de seus efeitos que conseguiremos compreender alguma política entre nós. Se a história à tradicional propõe que os períodos se sucederam, deveremos imaginar que o colonialismo europeu capitaneado pelos portugueses, o Estado monarquista proclamado às margens do Ipiranga pelo mártir, falso libertador, a República emergente, os democratas, o ruralismo do café com leite e o nacionalismo do Brasil para ser amado ou deixado; que a ditadura dos milicos e o proto-comunismo, que o capitalismo das elites, o neoliberalismo de mercado, o ruralismo da soja e a social-democracia da era do palhaço Peri são períodos distintos dentro do contexto nacional, paradigmas distintos que inauguram novos Brasis.

Assim querem que seja.

Falsos.

Na minha opinião, cada qual destes períodos pode ser considerado um arranjo específico dentro da vigência da nossa história atual, e mesmo que algumas das características mais evidentes de cada qual dos arranjos ditos mais antigos possam estar abrandadas ou soterradas pela sedimentarização das demais, são todas elas misturadas que concorrem para a concretização deste lugar onde vivemos hoje. É preciso dizer que o coronelismo colonial ainda existe e que a lei da chibata vale em grande parte do sertão rural ou urbano. Ainda temos os Orleans e Bragança e sua porcentagem geral quando da escolha da modalidade de governo. Ainda temos súditos. Ainda temos os republicanos e os democratas. Temos barões, reis da soja e pelo menos um movimento social visível com causas abertamente nacionalistas. É preciso dizer que muitos dos ditadores de então ainda estão vivos, e que seus torturadores fiéis também estão. Às vezes, moram ao lado. Ainda temos proto-comunistas e até proto-anarquistas. Capitalistas, neoliberais e social-democratas, aos montes.

E também temos nosso mártir: Peri, falso libertador.

Em frente à minha casa, neste momento, uma criança de cerca de 12 anos opera uma pá, enchendo sacos de aninhagem com areia. Um senhor de idade leva os sacos escada acima para o que eu imagino seja uma reforma no prédio vizinho. O moleque ouve o funk do godô. São negros. Quem ainda tem a cara de pau de afirmar que a escravidão foi abolida pela princesa boazinha? Não haverá a vigência dos arranjos colonialistas nos estrangeiros que vem ao Brasil para foder as negrinhas em Copacabana, assim como os portugueses fodiam as indiazinhas no mato virgem? Em que medida teorias hegemonizantes conseguirão dar conta deste mosaico de localidades para além das circunstâncias tomadas como gerais que o arranjo globalizado inaugura? Poderá Foucault falar do que se passa no cotidiano do Oiapoque ao Chuí sem ser em termos genéricos, mesmo que estes termos genéricos tragam também problemas importantes, mesmo que genéricos?

Não é à toa que um dos principais sonhos da juventude brasileira, e certamente falo de uma juventude de classes média e alta, principalmente, pois entre os principais sonhos desta juventude está o sonho de passar um ou dois anos sabáticos a lavar pratos na Europa. Outros vivem a corrida estadunidense. A aristocracia tupiniquim ainda deseja ser européia ou gringa, e muitos apressam-se a fazer sua árvore genealógica atrás dos passaportes para o primeiro mundo. Até Iracema, esposa do palhaço Peri, já tem o seu. Nosso ex-ministro da cultura também. Mesmo que o intuito seja o ato nada autogestionado de lavar os pratos dos outros ou de ser tratado como latino de segunda mão, babam nos consulados a ponto de criar um charco. É preciso encarar um desafio local: mandem seus filhos lavar pratos no sertão nordestino por dois anos. Ou cavar poços, porque aqui a água é escassa enquanto, por lá, sobra o caviar.

Depois, se quiserem, mandem pro exterior.

Ou às favas.

Se as noções de macro ou micropolítica devem ser abolidas em função de movimentos molares ou moleculares, e isso certamente traduz diferentemente os critérios do Grande Poder, mesmo assim não podemos negligenciar as questões de abrangência de determinados arranjos. O tempo desloca-se à vontade, mas também percorre e agencia um espaço específico.

Por fim, apresso-me em dizer que nesta sessão não há apologia nenhuma à intifada tipicamente brasileira. As fronteiras nacionais são precárias em se tratando de proximidades. Seria melhor falar de localidades. E na abolição completa de todas as fronteiras que delimitam esta farsa que é o Estado nacional.

Grande Poder, ainda

Grande Poder, ainda. Tentarei operar com uma concepção de poder que, mesmo que já não seja mais considerada herética aos olhos dos entendidos em política, ainda assim permanece em condição controversa dentro dos quadros pintados pelos cientistas, analistas e militantes esquerdistas das últimas décadas; o conjunto mais geral das análises políticas parte de outro princípio. A dificuldade em apresentar o Grande Poder reside no fato que sua grandeza reside menos em sua larga extensão – mesmo que esta seja também uma das suas características – do que em sua farta mas difusa distribuição: seu paradoxo consiste no fato de que tanto maior ele é, tanto mais difícil é percebê-lo; tanto mais difusa é sua distribuição, tornando-o mais intenso, tanto mais difícil é percebê-lo.

Uma curiosidade: à época de seus primeiros anos como professor em Clermont, França, idos de 1960-1962, o filósofo Michel Foucault torna-se amigo de Jules Vuillemin, outro dos professores de filosofia daquela universidade. Seus biógrafos contam que ambos eram vistos juntos seguidamente, e um de seus programas preferidos eram as longas caminhadas pelo centro da cidade; também eram vistos em grandes mesas de restaurante, rodeados de muitos outros colegas da mesma universidade, isso quando almoçavam juntos. A despeito da amizade que se desenvolvia e das longas conversas que mantinha com Vuillemin, ambos percorreriam caminhos que levariam suas opiniões pessoais ao ponto das divergências que se afirmam mais e mais: Vuillemin progressivamente torna-se um homem de direita e Foucault, bem ou mal, permanece um homem de esquerda. Não só em seus livros, mas no seu interesse e envolvimento com as agitações do maio francês, no seu envolvimento na discussão sobre as prisões e na própria escolha de seus temas de pesquisa, esses desdobrados até nós através dos cursos que ele ministrou já na época do Collège de France (1970-1982), tudo isso deixa entrever um interesse transversal nas práticas libertárias. No ponto cego de suas divergências com Vuillemin, Foucault costumava terminar as discussões afirmando que o amigo era um anarquista de direita enquanto ele próprio era um anarquista de esquerda.[i]

Será só uma brincadeira entre amigos?

A presença de discussões e citações sobre os anarquismos em seu trabalho, dada a profusão e o fôlego de sua obra, é bastante rara. Sabemos que ele tratou da emergência do anarquista como categoria psiquiátrica em seu curso Os Anormais – e nisso também contribuiu para uma análise daquilo que foi chamado de terrorismo anarquista[ii]; que fez algumas reflexões sobre o anarquismo de Charles Fourier em outros destes cursos no Collège de France[iii]; que, nas conferências que fez no Brasil no ano de 1973[iv], citou o anarquismo a propósito de suas discussões sobre o voluntarismo da militância; e que tratou do tema de forma esparsa em outras conferências e artigos que ministrou ou escreveu[v]. Nutriu polêmicas com Chomsky[vi] e certamente conhecia a escrita de La Boétie[vii] e Pierre Clastres[viii].

Podemos dizer que esta bruma que cobre uma possível ligação de Foucault com os anarquismos está bem relacionada com o restante de sua produção, isso porque, assim como outros dos seus cúmplices, Foucault procura uma política sem filiações, nos limites da heterodoxia e da heterotopia. As reflexões que ele irá desenvolver durante esta produção, porém, dialogam e contribuem tanto para os anarquismos contemporâneos que podemos imaginar que aquela brincadeira com Vuillemin não era somente uma brincadeira cotidiana entre amigos, mas também uma forma gentil de colocar uma verdade pessoal e difícil ali onde, pelas fissuras, surgem grandes escândalos acadêmicos: já em Vincennes, nos anos 70 e a propósito de uma polêmica dirigida contra os professores de esquerda, Foucault recorda e lamenta que desde o início do século é censurado aos docentes de filosofia divulgar idéias anarquistas.[ix]

Conhecemos isso ainda hoje.

Michel Foucault, clandestino.

Mesmo que ele não tenha esta filiação aberta e que o problema que ele nos ajudará a colocar não seja um problema propriamente anárquico, ele nos ajudará na discussão sobre algumas estratégias necessárias à colocação do problema do poder. Vejamos: em primeiro lugar, “não se trata de analisar as formas regulamentadas e legítimas do poder em seu centro, [mas de] tomar o poder em suas formas e em suas instituições mais regionais, mais locais, sobretudo no ponto em que esse poder, indo além das regras de direito que o organizam e o delimitam, se prolonga, em conseqüência, mais além destas regras, investe-se em instituições, consolida-se nas técnicas e fornece instrumentos de intervenção materiais, eventualmente até violentos”[x]; em segundo lugar, “estudar o poder, de certo modo, do lado de sua face externa, no ponto em que ela está em relação direta e imediata com o que se pode denominar, muito provisoriamente, seu objeto, seu alvo, seu campo de aplicação, no ponto, em outras palavras, em que ele se implanta e produz seus efeitos reais”[xi]; em terceiro lugar, “não tomar o poder como um fenômeno de dominação maciço e homogêneo [...]; o poder [...] deve ser analisado como uma coisa que circula, ou melhor, como uma coisa que só funciona em cadeia. [...] O poder se exerce em rede e, nessa rede, não só os indivíduos circulam, mas estão sempre em posição de ser submetidos a esse poder e também de exercê-lo”[xii]; em quarto e último lugar, “seria preciso [...] fazer uma análise ascendente do poder, ou seja, partir dos mecanismos infinitesimais [...] e depois ver como estes mecanismos de poder [...] foram e ainda são investidos, colonizados, utilizados, inflectidos, transformados, deslocados, estendidos [...] por mecanismos cada vez mais gerais e por formas de dominação global.”[xiii]

Um parágrafo denso; voltemos: em primeiro lugar, “não se trata de analisar as formas regulamentadas e legítimas do poder em seu centro”, ou seja, não se trata de analisar o poder ali onde ele apresenta-se convergente e concêntrico, onde ele apresenta-se evidente, através dos grandes e principais conjuntos que, numa primeira visada, parecem constitui-lo. O problema do poder não diz respeito ao problema do Estado, ao problema da Empresa, ao problema da Ciência ou ao problema da Mídia, mesmo que o Estado, a Empresa, a Ciência e a Mídia sejam formas regulamentadas e legítimas dentro da realidade do Grande Poder. Trata-se de analisar o prolongamento destas intituições gerais no cotidiano, não só através do prolongamento dos operadores do Estado, da Empresa, da Ciência e da Mídia em âmbito local, mas também em seu prolongamento entre aquilo que aparentemente lhe é externo, ali onde seu prolongamento estende o poder não somente entre os grandes conjuntos, mas entre os corpos. Em segundo lugar, “estudar o poder do lado de sua face externa”, ou seja, tomar o problema do poder não somente através dos seus mecanismos internos de sustentação, mas também no ponto onde ele encontra-se diretamente em embate com aquilo que constitui a sua exterioridade, no ponto onde o poder deixa de ser uma forma precisa e passa a ser uma agonística, uma luta. Podemos dizer que precisamos estudar o poder no ponto onde ele não conseguirá um exercício livre do exercício da resistência. Em terceiro lugar, “não tomar o poder como um fenômeno de dominação maciço e homogêneo”, ou seja, não tomar o poder como uma prática de dominação e repressão unificada, mesmo que ele possa ter efeitos de dominação e efeitos repressivos eventualmente generalizados; é preciso tomar o poder como um prática exercida em cadeia, de ponto em ponto e diferentemente a cada vez, tomar o poder como uma prática em relação a qual todo indivíduo está em posição de submeter-se ao poder, mas também de exercê-lo. Em quarto e último lugar, “fazer uma análise ascendente do poder”, ou seja, fazer uma análise dos deslocamentos deste poder exercido como prática local até a realização de seus mecanismos mais gerais e globais, esses possivelmente representados pelas formas regulamentadas e legítimas das quais seria preciso abrir mão em primeira instância.

Em poucas páginas, Michel Foucault joga uma tina de água fria no problema do poder tratado à tradicional. Para genealogias mais meticulosas representando a pesquisa cotidiana de Foucault, sugiro a série de quatro cursos que ele ministra no Collège de France entre os anos de 1975 e 1980[xiv], mesmo que esta reflexão sobre o poder esteja dispersa ao correr de toda a sua obra, de diferentes maneiras. Aqui, porém, ficaremos com suas precauções somente no que elas nos servem para fazer uma pequena crítica da esquerda à tradicional: uma genealogia da queixa esquerdista como elemento constitutivo de seu discurso e de suas práticas, aquilo que já foi chamado de militância vivida como impotência[xv], esta genealogia mostra uma relação direta da militância vivida como impotência com a constituição do poder como campo regulamentado e legítimo exercido sobre indivíduos dispersos e sem escolha possível. Amparados numa concepção de poder que percebe seu exercício como descendente e unidirecional, seja uma unidirecionalidade capitaneada pelas infra-estruturas institucionais, seja uma unidirecionalidade capitaneada pelas super-estruturas ideológicas, a esquerda à tradicional é dada às analíticas da dominação e da repressão.

É justo que ela coloque o problema do poder desta maneira, mas não porque o poder seja exercido desta maneira; como a face negativa do próprio capital, a esquerda à tradicional disputou historicamente os seus mesmos espaços de realização, e nisso perdeu gravemente. A militância vivida como impotência, tomando o poder como dominação maciça e repressão vigente, é um dos sintomas do apodrecimento da esquerda à tradicional, e talvez o principal indício de sua capitulação final. O motivo da queixa, venha ela na forma de filosofia política ou em palavras de ordem, é a frustração no desejo da esquerda à tradicional de estar onde o capital está: ela também deseja exercer o poder maciçamente, lançou mão de estratégias que buscavam este tipo de exercício e nisso foi completamente equivocada. O principal reflexo deste equívoco é a perplexidade atual. Enquanto a esquerda à tradicional agoniza, o capital avança como se não houvessem outras alternativas.[xvi]

Mas poder é outra coisa.

Empoderar-se também é.

O Grande Poder surge de uma massa – seja ela leiga ou crítica – dispersa pelo cotidiano da vida, e que dos confins deste cotidiano, na surdina da história, investe tanto a tanto o seu desejo na produção e na permanência da unidirecionalidade, da hegemonia e dos grandes equipamentos; de uma grande massa dispersa que deseja os resultados do Grande Poder, seu folclore, suas bonificações, memórias, mecanismos, rotinas e afetos. Dizer que o poder é exercido diferentemente não é dizer que não vivemos uma situação de quase total hegemonia, senão de hegemonia imperial no que diz respeito à produção e à permanência do modo de vida capitalista. A penetração das instituições de produção, sedução e regulamentação deste modo de vida chega ao ponto do sufoco, no ponto onde seus manuais de ética propõem que rasguemos da própria vida como forma de fazer funcionar a turbina do que virá, e nisso todos cortamos da nossa própria carne. A conivência geral da população indica que o Grande Poder está realmente instalado, e sua principal característica não é nenhuma outra além do fato de ele ser maciçamente desejado.

O Grande Poder surge quando as forças reacionárias presentes nestas diferentes formações históricas que coexistem manifestam-se, seja solitária ou coletivamente, seja em consenso ou dissenso, e assim mostram não só a enormidade do corpo do monstro autoritário, mas o não-estatuto de sua imagem móvel e fractal, e a força dispersa que surje na junção destes diferentes arranjos de poder vigentes em nosso cotidiano mais direto: o Grande Poder é resultado direto desta equação complexa que concorre para dar existência ao instante que vivemos, surje do embate entre diferentes formações históricas tanto globais quanto locais em atualidade como a sua face mais reacionária. O Grande Poder não surge de um estatuto próprio, mas como um dos efeitos do embate entre estatutos.

Empoderar-se é resistir a isso, aqui e agora.

Do jeito que for possível.

É tensionar rumo ao impossível neste embate entre estatutos.



[i] Ver: Salvo Vaccaro. Foucault e o Anarquismo. Rio de Janeiro: Achiamé, s.d. p.7.

[ii] Ver: Michel Foucault. Os Anormais. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

[iii] Ver, especialmente: Michel Foucault. “Aula de 28 de janeiro de 1976” & “Aula de 17 de março de 1976” in Em Defesa da Sociedade. São Paulo: Martins Fontes, 2002. p.75-98 & p.285-315.

[iv] Estas conferências foram transformadas em livro. Ver: Michel Foucault. A Verdade e as Formas Jurídicas. Rio de Janeiro: Nau, 2003.

[v] Ver: Salvo Vaccaro. Foucault e o Anarquismo. op. cit.

[vi] idem.

[vii] Filósofo francês (1530 – 1563) considerado um dos precursores do pensamento anarquista.

[viii] Antropólogo e etnógrafo francês (1934 – 1977) com convicções anarquistas e anti-autoritárias.

[ix] Ver: Salvo Vaccaro. Foucault e o Anarquismo. op. cit. p.12.

[x] Ver: Michel Foucault. “Aula de 14 de janeiro de 1976” in Em Defesa da Sociedade. São Paulo: Martins Fontes, 2002. p.32.

[xi] Idem. p.33.

[xii] Idem. p.34-35.

[xiii] Idem. p.36.

[xiv] A saber: Michel Foucault. Em Defesa da Sociedade. São Paulo: Martins Fontes, 2002 (curso de 1975-1976); Michel Foucault. Segurança, Território, População. São Paulo: Martins Fontes, 2008 (curso de 1977-1978); Michel Foucault. Nascimento da Biopolítica. São Paulo: Martins Fontes, 2008 (curso de 1978-1979). O último deste ciclo de quatro cursos, chamado Do governo dos vivos, ainda não tem edição em português, mas pode ser acessado através de seu resumo em: Michel Foucault. “Do governo dos vivos” in Resumo dos Cursos do Collège de France (1970-1982). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1997. p.99-106.

[xv] Ver: Luis Cláudio Figueiredo. “A militância como modo de vida. Um capítulo na história dos costumes contemporâneos” in Modos de Subjetivação no Brasil e Outros Escritos. São Paulo: Escuta, 1995. p.111-128.

[xvi] Empreendi esta discussão sobre a constituição do modo de vida militante no ambiente da esquerda tradicional na minha dissertação de mestrado. Ver: Stéfanis Caiaffo. Resistência e Militância – Cartografias contemporâneas. op. cit..

Escuta, Zé Ninguém!

Escuta, Zé Ninguém! Hoje pela manhã, tendo presente que o objetivo do dia era iniciar esta sessão sobre o contexto mais geral da nossa vida coletiva, preparei meu café da manhã e sentei-me a escutar as notícias matinais em um programa diário de uma das rádios de grande projeção local. Estou novamente em Porto Alegre, austral do Brasil, mas isso importa nada ou pouco: mesmo com nossas peculiaridades regionais, e elas certamente existem, o formato do programa é bastante genérico e o caso que pretendo apresentar também, mesmo que genérico não signifique desimportante. O programa local é um caso, mas certamente não é só um caso local.

A pauta era o costumeiro: um jornalista-âncora, de renome local, conversa pelo microfone sobre fatos e dados recentes e atualizados, assim como coordena a participação de alguns correspondentes que agregam informação desde outras partes do Brasil e até do exterior, algumas pequenas entrevistas com convidados especiais, normalmente convidados que representam alguma entidade envolvida ou que sejam homens e mulheres de notório saber e boa projeção no que é tratado. Professores universitários são recorrentes. É daqueles programas que as rádios transmitem logo cedo e que apresentam o que parece ser a ordem do dia, fomentando a cena pública com informações e discussões pertinentes.

Entre notícias sobre o assassinato misterioso do vice-presidente do sindicato médico gaúcho, comparado inclusive a um famoso assassinato de um jornalista desta mesma rádio ocorrido década atrás e ainda hoje sem solução; notícias sobre o desdobramentos da enxurrada que varreu boa parte de Santa Catarina; notícias e entrevistas sobre a condição polêmica da mais cara e controversa universidade privada local, sobre sua inadimplência com os governos e sua má garantia aos funcionários, bem como sobre suas negociações por aumento de filantropia estatal como forma de equacionar o problema; sobre o reitor desta mesma universidade, que está foragido; notícias sobre pautas da Câmara e do Senado federais; enfim, o dado do último boletim de um instituto público de pesquisa que falava do crescimento recorde de cerca de seis vírgula oito ponto percentual que o Brasil apresentou em sua economia no ano corrente de dois mil e oito.

Neste ponto, alguns jornalistas e críticos festejavam principalmente a capacidade de afirmação e recuperação do tecido produtivo nacional perante a atual crise mundial, instalada desde que as falências e quedas de bolsas de valores começaram a aterrorizar os analistas e operadores econômicos, os governantes, os intelectuais e alguns setores da sociedade – principalmente aqueles que ainda mantém poder ou circunstância de investimento financeiro. Mesmo que as coisas não estejam totalmente estáveis perto do final do ano, alguns dizem que tudo está mais calmo, que a sangria foi apaziguada e que o pior já passou. Outros dizem que o pior ainda virá, e que os anos de então também serão marcantes.

Na capa do jornal do dia seguinte, editado pela mesma matriz do programa de rádio e de grande circulação diária, leio as manchetes: metade das câmeras de rua da Capital [gaúcha] está desativada, então o assassinato do vice-presidente do sindicato médico não foi capturado ao vivo pelos serviços de segurança pública; o reestabelecimento do fornecimento de gás natural através da fronteira, fornecimento interrompido desde a enxurrada em Santa Catarina; governador é preso ao tentar vender vaga de Obama ao Senado; um homem que sobreviveu à queda do avião em Bagé, fronteira com a Argentina. Não bastasse, uma chamada sobre “a cara do Orkut”, um show de Nei Lisboa organizado por universitários de três cursos locais, um cineasta centenário ainda em ação e oportunidades que vêm com investimentos. No verso, meia página para a notícia que concorre como a principal da semana contra a do crescimento econômico: o Fenômeno vai jogar no Timão em dois mil e nove.

Logo mais é Roberto Carlos, Papai Noel e as cores da virada.

Dezembro, companheiros.

O ciclo inevitável se completa: no final do ano que vem, estaremos novamente falando dos indicadores econômicos, estaremos novamente falando de manobras e pessoas corruptas, estaremos novamente falando de Obama e seu rastro pela política estadunidense, sobre catástrofes naturais, assassinatos inexplicáveis, futebol, o Fenômeno, a cara do Orkut, oportunidades, pautas. Dois mil e dez será de Copa do Mundo e nestes anos tudo parece melhorar.

Todos seguirão mastigando jornal.

Não tenho a mínima chance.

Em cada época, um conjunto de ego trips e seus resultados: o sistema onde se vive diz respeito à ego trip que se tem. É certo que o capitalismo é algo imperial nos dias de hoje, mas isso é somente porque um grande conjunto das ego trips contemporâneas deseja participar deste sistema, deseja participar de sua criação e usufruir benefícios. É certo que existem muitos que desejam por projeto, outros tantos que desejam por conivência e muitos que desejam por desamparo.

A rebeldia virou novela nas mãos de Sílvio Santos.

Falo da ego trip do rei e o especial de final de ano do Roberto, a ego trip do estadista e a popularidade do operário, a ego trip do empresário e o fascínio pelos crimes do colarinho branco. A ego trip do cientista. A ego trip do intelectual, do formador de opinião e do patrão. A colorida ego trip do playboy e do magal, a ego trip do pit bull, mas também a ego trip da noivinha[i] e a ego trip da maria. A ego trip do amigo do amigo. A ego trip do empreendedor e a ego trip da geração saúde. O cliente sempre tem razão, assim como o pai de família e o pastor. O Grande Poder é todo este conjunto de ego trips transformado em sistema: é o cotidiano ordinário transformado em sociedade.

Entre as alegrias do marketing, através de êxtases e espasmos sofridos com os leves choques telemáticos e cibernéticos dos suportes midiáticos, desliza então nosso corpo pela vida lisa, eterno entre-as-prateleiras de produtos identitários, acoplando desejos à força do sistema, movimentando as agonizantes engrenagens fabris, fortalecendo as redes empresariais, acompanhando os extertores estatais e traficando senhas e cifras sob o guarda-chuva do infoespaço. Na roda viva do capitalismo, os mercados tratam materialmente dos modos de ser e viver, e a vida é somente um cardápio de serviços que podemos fazer, direitos e bônus, assim como utensílios que podemos obter. Alguns economizam ou maximizam as forças do corpo, e nisso prometem tanto uma redenção final quanto um caminho às direitas. Temos também sensações seguras, identidades prêt-a-porter, implantes e desfrutes frugais. Temos paz e guerra televisionadas. Temos alimentação laboratorial e balanceada, academias de musculação e ginástica empresarial; temos planos de saúde que não processam e ainda atendem, seguros privados de casa, carro, aposentadoria, contra terceiros, de morte ou vida. Tudo isso pago nas suaves prestações de uma dívida infinita e material, justamente no modelo kafkaniano d’O Processo.

Para além da vida, procura-se a redenção do corpo na sua conjugação com a eternidade científica, e a angústia existencial agora é a eterna insegurança de perecer. O menino Jackson deve ser congelado. Glória Menezes tem o mesmo rosto há 30 anos. As cirurgias plásticas mostram apenas o mais leve sintoma de uma epidemia generalizada cujas formas de intervenção sobre o tempo da vida vão no caminho que liga a engenharia genética ao congelamento e clonagem de humanos. O poder já se exerce, em determinados pontos, como uma reinvenção pós-humana da concepção[ii].

Tudo isso pra entrar no céu do capitalismo.

Pra ganhar um Fuscão no juízo final.

É no agregado de ego trips capitalistas que está ligada a nossa idéia de sociedade, a sua marola bem sucedida, os seus talheres bem dispostos, suas intervenções cirúrgicas, jaquetas metálicas e estofados sintéticos; todo seu cotidiano entre ciborgues: estranha forma de gostar das pessoas como máquinas da imagem e do dinheiro, engrenagens lubrificadas pelo néctar azedo que é servido pelos atendentes mestiços que outrora traficamos, pela mistura de sangue, suor e coquetéis híbridos. O bom de ego trip é aquele que congrega, aquele cuja viagem também agrega benefícios na grande roda da fortuna: aquele cuja ego trip de rei vira trinta segundos na tela do Faustão, aquele cuja ego trip de estadista permite comemorar uma vitória eleitoral, aquele cuja ego trip de empresário rende uma sapataria ou mais, a ego trip do cientista e a laura dos ministérios, a ego trip do intelectual e o livro publicado, o formador de opinião e o espectro de rádio-freqüência, o patrão e o empregado, o playboy de carro novo e o magal de carro emprestado, o pit bull e seu cachorro, a noivinha e seu marido, a maria e sêo josé, todo empreendedor e seu negócio, a geração saúde e a sobrevida, o cliente sempre tem razão porque compra, o pai de família e o pastor.

E o arroz e o feijão na mesa do sem dentes.

Ainda nem falamos dos outros mil Brasis.

Aquele que não congrega, que não agrega nem traduz benefícios, esse vive da hipótese ou da promessa inclusiva, e baba o chão na porta de trás quando toca o sino da ração. Ambos percebem e apresentam o Grande Poder tanto como a única sociedade possível quanto como a única iniciativa inclusiva. Movimentado cotidianamente por muitos, especialmente por ninguém, acharemos neste poder difuso, neste desejo difuso, a turbina do Grande Poder.

Zé Ninguém: “chamam-te ‘Zé Ninguém’, ‘Homem Comum’ e, ao que dizem, começou a tua era, a ‘Era do Homem Comum’. [...] A tua herança queima-te as mãos. [...] Nem os teus mestres nem os teus senhores te dizem como realmente pensas e és, ninguém ousa dirigir-te a única crítica que te podia tornar apto a ser inabalável senhor dos teus destinos. És ‘livre’ apenas num sentido: livre da educação que te permitiria conduzires tua vida como te aprouvesse, acima da autocrítica.”[iii] Wilhelm Reich já disse que você preside o Grande Poder, Homem Comum. Há anos.

Wilhelm Reich, clandestino.

Ou também tornar-se um empreendedor bem comportado, e achar sua ego trip, e para isso ajudar no funcionamento da turbina, permitindo valer e continuar a cinética do Grande Poder; ou tornar-se persona non grata, espécie de cidadão destinado a padecer na marginalidade, na indiferença e no obscurantismo, senão na raiva explícita impingida às bordas e linhas de escape do sistema.

Hoje em dia, dada a vigência do pacto, nossas antigas questões acerca da liberdade, pelo menos as que diziam respeito à sua expressão e vivência cotidianas, essas deixam de figurar entre as discussões gerais; acreditamos agora que a liberdade já tenha sido levada o suficiente adiante, pelo menos até o ponto onde não se torna caso de intervenção policial, jurídica ou militar. Os cardápios são complexos e cheios de alternativas. Já pressuposta, somente resgatamos a liberdade em discussão quando do julgamento ou da intervenção nas suas bordas e nos seus limites. Na teleologia do capital as bordas e limites de nossa liberdade parecem tão maleáveis quanto pudermos imaginar, e sua distensão constante é um dos motes favoritos dos vídeo-clipes e slogans que produzimos e acompanhamos no chapante discurso do marketing. Não temos mais cara-de-pau de dizer que somos oprimidos, se bem que ainda nos saibamos suficientemente sugestionados.

Liberdade é escolher, entre os cardápios, a sua própria ego trip.

Acabareis todos por morrer de conforto.

É certo que o Grande Poder é aqui e agora e que atua de forma complexa e nada permissiva. Mas a experiência força-nos constantemente a diferir, a constantemente reinventar, atualizar ou extrapolar os pactos vigentes. Os tentáculos do Grande Poder operam na captura desta vida que transborda os sentidos vigentes em novas matérias de expressão, novas formas de ser e de viver. É preciso voltar a acreditar que somos mais espertos. Afirmar a extertor final da esquerda tradicional não é afirmar o fim da política, tampouco o fim da esquerda. Se permanecerem aqui alguns dos equívocos anteriores, certamente o equívoco de uma certa esquerda necessária permanecerá, e já tive a oportunidade de fazer o elogio do voluntarismo quando da discussão da ação direta como estratégia sem subterfúgios.

As anarquias são um problema de esquerda e, assim como o problema mais geral das esquerdas, é também preciso colocá-lo diferentemente. Já está no senso comum dizer que esquerda e direita não existem mais, coisa que me irrita profundamente porque soa a niilismo ou promiscuidade, e por isso deixarei que os leitores façam a escolha dos termos que melhor apetecerem: se não querem me ouvir afirmando uma discussão de esquerda, que pelo menos aceitem uma certa estratégia canhota ou um grau necessário de potência sinistra.

Quando a pedra no teu sapato, tendo por demais estragado teu caminhar, acabará te levando enfim à revolução dos confortos? Nossa principal luta é contra o submisso-em-nós e não contra quaisquer outras figuras institucionais, ideológicas ou esotéricas.

O Grande Poder é o submisso-em-nós.



[i] Ver: Suely Rolnik. Cartografia Sentimental – Transformações contemporâneas do desejo. op. cit..

[ii] Ver: Paula Sibilia. O Homem Pós-orgânico – Corpo, subjetividade e tecnologias digitais. Rio de Janeiro: Relumé Dumará, 2003. & Paula Sibilia. “O corpo obsoleto e as tiranias do upgrade” in Revista Verve #6. São Paulo: Núcleo de Sociabilidade Libertária da PUC/SP. Out/2004. p.199-226.

[iii] Ver: Wilhelm Reich. Escuta, Zé Ninguém! São Paulo: Martins Fontes, 1977. p.21.